Ele entrou no quarto do Hotel, e eu lhe sorri, conforme virei minha cabeça em sua direção. Ele me contou, animado, como comprara os sapatos italianos que almejava há tempos. Eu repliquei que ele os devia ter comprado na Itália, e não em Paris. Mas, minha réplica foi doce, divertida e maternal. Como tudo quanto eu fazia, aliás. Pus meus braços ao redor de seu pescoço. Ele contemplava, por detrás de mim, a paisagem que a janela ostentava e, pela qual, pagáramos caro preço: a Praça da Concórdia. O céu estava acinzentado e a temperatura havia caído. Eu não queria sair do Hotel. Ele ainda não sabia, mas Paris, com seus monumentos megalomaníacos,a que atribuíram o significado de amor romântico, me assustava. E o frio não era convidativo a enfrentar meus medos.
Ele se colocou a experimentar os sapatos, feliz como um menino que acaba de ganhar um brinquedo novo. Eu me sentei na poltrona a contemplar-lhe. Também eu era um brinquedo novo, do qual ele se enjoaria. Eu bem sabia que a vida separa os que se amam e que nós não seríamos uma exceção. Eu bem sabia que aqueles momentos eram efêmeros na sua essência feliz. Eu bem sabia...ele, não. Ou se o soubesse, não se importava. Eu bem sabia que , à direita, ao longe, estava a Torre Eiffel. Eu não podia vê-la do quarto do Hotel, mas sua presença estava lá. E eu a temia, com sua petulância , com seu desafio, com o escárnio com que me olhava quando dela me aproximava. As muitas visitas a Paris e os muitos amores me haviam roubado a ingenuidade dos iniciantes, indispensável à coragem desprevenida de quem é feliz sem restrições.
Propus, num rompante:
----Que tal mudarmos de ares? Quem sabe Oslo? Há vôo direto daqui pra lá.
Ele riu, gargalhou:
-----Oslo? A antítese do amor? A chuva melancólica? Munch?
-----Não me sinto bem em Paris desde que entendi, em parte, como a vida marcha. Não me sinto bem aqui... Munch pode ser romântico...depende do ponto de vista.
------Você está louca, Luisa----disse ele numa nova gargalhada.--- Oslo é um assassinato do amor romântico numa lua de mel. Pra uma próxima viagem, quem sabe...
Eu o abracei novamente, quase que numa despedida, que eu sabia que só ocorreria anos mais tarde. Mesmo assim, abracei-o, também num pedido, calado e tolo, de que ele não se fosse jamais. Mas, quem era ele para contrariar a vida? A vida separa os que se amam. E só eu sabia o quanto o amava.
------Vamos à Place des Vosges?---disse ele como se nada tivesse ouvido do que eu falara. Eu respondi que sim, como se nada tivesse antes falado. Afinal, não se mata o amor antes que ele morra de causa natural...vive-o, até quando é possível. E se o possível fosse o eterno, eu seria grata aos Céus pelo milagre. Por vezes, milagres acontecem. Então, eu me arrumei, e pus-me a caminho da Place des Vosges.
No entanto, algo me dizia que havia, nesta vida, o tempo de Oslo e o tempo de Paris, e que, embora eu não devesse adiantar o primeiro, ele viria , certamente, com sua melancolia. Meu amado mesmo o falara: “Pra uma próxima viagem, quem sabe...”. Mas, tal viagem não seria a dois. E o vôo Paris- Oslo teria suas escalas...não seria um vôo direto.
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