A noite era escura. Seo Adolfo perdera o sono. Levantara-se , pusera os óculos e o chinelo. Fora à varanda. Contemplara a lua. A mente dava indícios de que queria vagar para algo há muito perdido. Seo Adolfo lutava para que ela não fosse lá. Resistia, se agarrava a tudo de concreto quanto houvesse ao redor: ao grito da cigarra, à saudação da coruja, ao branco prateado lunar, às estrelas pequeninas e cintilantes, ao breu. E, de repente, o breu levou-o lá, aonde ele não queria ir. Ele era jovem. Amava Ana. Sonhava em ser feliz com ela. Ele era um moço mirrado num terno alugado, com um sorriso gratuito, que posava para a foto com a esposa. A foto amarelou. Ana nunca se entregou de verdade às suas carícias. Eles tiveram dois filhos, como quem faz uma transação comercial, numa sociedade harmoniosa. Ana virou filha e, depois , mãe: “Adolfo, não anda descalço, que vai pegar gripe”; “Adolfo, não come tanta gordura, que vai entupir as veias”; “Adolfo, tem que arrumar o jardim”. E, então, houve Carmem, e Carmem era carmim, era fogosa, era a paixão. Mas Carmem não se apaixonava; ela fazia apaixonar. E Adolfo, pressentindo que daria mais do que receberia, a colocou na gaveta dos casos informais. Não sentiu culpa pela traição. Estava suprindo suas necessidades, como o menino que tem fome e pega a maçã na macieira do vizinho. Fez amor e não amou. Quando amou, não pôde fazer amor. E, no final, já nem sabia o que era uma coisa ou outra. E agora que o corpo não mais sabia e o coração não mais se lembrava de como amar , Adolfo perdera o sono. E a noite era escura. Quando amanheceu, deitou-se ao lado da esposa adormecida. Ela não era bonita como antes, os anos lhe trouxeram alguns quilos e flacidez. Mas os cabelos pintados ainda eram sedosos e os olhos, apesar das rugas que o circundavam, ainda eram os mesmos. Seo Adolfo acariciou-lhe o seio. Dona Ana acordou sobressaltada, com o coração disparado. Olhou Adolfo com estranhamento. Ele sorriu sem graça, virou-se para o lado e fingiu adormecer. Pensou em pedir, naquele dia, ao seu médico, um remédio para dormir. Afinal, as noites eram escuras. Mas, não houvera tempo.Pela manhã, seo Adolfo infartou e a última coisa que viu foi o rosto de Ana e , quando já não tinha forças para abrir os olhos, pensou em Ana. E , quando já não tinha clareza para pensar, delirou sobre Ana. E Ana preparou-lhe um belo velório e derramou-lhe lágrimas sinceras, e rezou Missas e terços. E passou a ter insônia, e viu que as noites eram escuras, e que o breu a levava aonde ela almejava saudosamente voltar. Mas percebeu que o amanhecer era solitário e que o dia pesava quando não se repousava à noite, e pensou em pedir ao médico um remédio para dormir.
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