Ricardo enterrara o pai. E nem sabia , ao certo, o que era morrer . Não sabia o que acontecia ao corpo debaixo da terra. Não entendia o que era alma. Tentava imaginar o que era o céu.
Com pena da orfandade precoce, sua mãe, dona Ana, comprou-lhe o cachorro que ele sempre pedira. E, enquanto ela cultivava a amargura da viuvez, Ricardo se alegrava com o filhotinho. Só tinha olhos para aquele bichinho. Vivia cada peraltice do animal como se fosse ele mesmo o cachorrinho. Corriam, rolavam juntos no chão. Ricardo era só alegria, como nunca dantes vista. Dona Ana amargurou-se com a falta de luto do filho. Passou a odiar o cachorro. Ofendeu-se com a alegria desrespeitosa de Ricardo. Um dia, ela esqueceu o portão de casa aberto e Bily fugiu. Ela o procurou com afinco, antevendo o drama que Ricardo faria quando descobrisse que seu amigo fugira. Bily havia sido atropelado. Dona Ana pagou um veterinário, mas o cãozinho não resistiu.
Ricardo parou de brincar, de comer e, depois, de dormir. Só chorava. Dona Ana esqueceu o próprio luto para socorrer o enlutado filho. Ricardo teve febre. Dona Ana comprou Totó. A febre cedeu. Mas Ricardo nunca brincou com Totó como brincara com Bily. Suas brincadeiras ficaram mais comedidas. Ele, por vezes, brigava com o cachorro e até lhe dava umas palmadas. E Dona Ana não mais se sentiu ofendida pela alegria de Ricardo. E Ricardo começou a entender o que era morrer, e acreditou que os cães tinham alma e que havia um céu especial para eles. E teve saudades do pai e de Bily. E amargurou-se porque a mãe deixara o portão aberto. Mas nada nem ninguém pôde lhe tirar a idéia de que, em algum lugar, seu pai e Bily brincavam juntos. E dona Ana teve que tolerar a esperança do filho.
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