domingo, 14 de novembro de 2010

O Professor

Naquele mês, o Professor de História tivera um infarto inesperado, que o confinara ao Hospital da capital mineira, a 418 km da escola. A diretoria do colégio não tardara, todavia, em providenciar um substituto provisório e em ordenar que, no início de todas as aulas, se orasse uma Ave-Maria pela recuperação do bom , velho e dedicado mestre Godofredo, que lutava pela vida,exilado da sua cara cidade.
O substituto chegava justamente de Belo Horizonte. Chegava calado, com olhos azuis e parados, com mistério em tudo quanto fazia ou não fazia, e com  dentes de quem fumava. Numa escola em que os mestres eram todos mulheres ou velhos senhores propensos a ataques cardíacos, aquele recém-chegado estranho fora capaz de causar comoção dentre as alunas, que, temporariamente, até se esqueceram dos alunos da Medicina e da Engenharia. Quase todas o admiravam, num amor platônico e juvenil. Discorriam, nos intervalos, sobre o tom do azul de seus olhos, sobre seu jeito de andar, sobre seu porte esguio e elegante, sobre o charme com que fumava antes de adentrar o pátio da escola. Não tardaram em descobrir onde morava e que ele residia só. Puseram-se, então, a conjecturar se seria viúvo ou desquitado, se teria gatos, que tipo de livros leria, que discos ouviria e o que teria lhe sucedido em Belo Horizonte para que viesse parar naquele fim de mundo. Teria ele matado alguém? Chegaram a dizer que ele matara a esposa, porque a flagara em adultério. Teria ele engravidado a filha de um político famoso, tendo que fugir da capital, obrigado pelo pai da moça? Haveria ele sido trocado pela esposa e, não suportando a humilhação, preferira exilar-se nos confins de Minas? As mais românticas meninas explicavam que ele era um celibatário porque não encontrara o grande amor e que gastara os anos anteriores àquela ida à pequena cidade mineira, cuidando da mãe tuberculosa, que morrera um mês antes do infarto do substituído professor.
Eram tantas as fantasias, que quase ninguém percebia que o homem era triste. Os cabelos eram brancos, apesar de ainda ser jovem, e não via ele nisso o charme que as alunas viam. Ele era de poucas palavras, o que não costumava condizer com o ensino de História nas escolas. Mandava as alunas lerem os capítulos que determinava, e ciente do frenesi que causava, nem um pouco deixava o próprio ego inflar-se. Ao final de algum tópico importante da matéria, fazia uma conclusão lacônica e ambígua, que ninguém compreendia. Tudo seu era assim...lacônico, misterioso, ausente...O azul venerado de seus olhos só se acendia quando falava da Revolução Russa. Este era o único momento em que ele era capaz de verbalizar seu conhecimento com alguma fluência. As alunas, intuindo a paixão daquele por quem eram apaixonadas, estudaram, com afinco, a história dos bolcheviques, Lênin, Marx. Houve até um ou dois pais indignados com a versão que suas filhas haviam recebido, na escola, sobre a história da União Soviética. Até pensaram em vingar-se, em agir, para protegerem suas meninas. Mas, os tempos eram outros e só se falava em Anistia.
Aquele professor, no entanto, carregava a melancolia dos que nunca seriam anistiados da infelicidade. Nenhuma aluna, conscientemente, o percebia. Logo, nenhuma delas se ocupava disso. Viam charme onde só havia lutos. E o homem via criancices tolas onde havia tanto amor platônico. É claro que havia também as alunas mais céticas, que não se renderam à admiração apaixonada. Preferiram ocupar-se em criticar a falta de didática do Professor, juntando-se ao coro dos meninos enciumados, que se ocupavam também em denegrir a aparência física do homem. Mas, de qualquer forma, a verdade é que a maior parte das alunas torcia para que seo Godofredo não se recuperasse tão cedo.
No entanto, o velho homem, tragicamente, se recuperou. E as meninas fizeram luto pela vida do antigo Professor. O substituto fora embora, sem se despedir e sem dizer o  futuro paradeiro. Houve quem falasse que ele retornara para Belo Horizonte. Houve quem especulasse Rio de Janeiro e outras, ainda, que dissessem que adoecera e fora para uma cidade de águas termais recuperar-se.
As meninas continuaram a não aprender História: se antes faltavam palavras a esta explicar, agora, faltava interesse em as explicações ouvir...Uma ou outra rapariga ainda rezava, secretamente, Ave-Marias pelo retorno do belo Professor. Mas não teve jeito...seo Godofredo não morreu tão cedo...
Foi só Dorinha quem, vinte anos depois, já mãe de um guri, avistou, de seu carro, o transeunte em Belo Horizonte, e reconheceu-o:era o amado Professor, com quem nunca tivera coragem de falar, como sonhara à época em que o via diariamente. Os anos pouco fizeram à aparência do homem. Mas, muito fizeram ao olhar de Dorinha: só agora, ela via que a elegância era uma magreza doentia , que o mistério era um jeito taciturno,  que o silêncio era uma mágoa sem grandes filosofias ou inteligência, e que o azul era apagado. Só agora ela via. E, ao ver, sentiu-se velha. Terrivelmente velha. Como a história dos bolcheviques. Por vezes, envelhecem mais rapidamente os olhos que vêem do que aquilo que é visto.


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