sábado, 6 de novembro de 2010

ele

A dor ficou desmemoriada e virou o nada, a apatia. E ele, como autômato,seguiu seus dias, burocraticamente, na repartição pública e na casa burguesa. Por vezes, ele desejava que a dor voltasse a ter memória, por mais que ferisse, para que ele se sentisse humano, novamente.
Um dia, ele adentrou um metrô e viu uma mala vermelha, como a de sua primeira esposa. O formato, a estampa, o tamanho, era tudo igual... A senhora que a portava, todavia, por sobre a echarpe de seda, tinha um pescoço longo e branco, que erigia a face bela  e gélida, em cujos olhos residia a reprovação, um tanto arrogante, que recaía sobre o olhar obstinado daquele estranho, naquele sobretudo desgastado. Ele percebeu  a sanção da dona da mala, e olhou para a janela. As paredes do metrô passavam escuras e rápidas, sem nada significar, exceto o fato de que estavam os passageiros em movimento. A dor havia recobrado parte da memória, e ele se sentia mais humano. O corpo pesou-lhe. Ao sair do metrô, seus passos foram mais lentos do que o habitual. A lembrança seria uma canga no pescoço, que, no entanto, faria com que ele sentisse existir. Nos minutos que se seguiram, ele sentiu poder optar entre esquecer totalmente e lembrar. Pressentiu, todavia, que a memória lhe tragaria para um abismo muito em breve, pois não teria meias medidas. Não havia meio termo naquela situação. E, então, covarde e sabiamente, optou por esquecer,  não abrindo mão da vida biológica. No fundo, ele esperava que, um dia, fosse a alegria que o convidasse, de novo, a ser humano. Ou ,quem sabe, o amor? Mas, a dor, se desprovida de sua estranha amnésia voluntária, lhe mataria. E de  que adiantaria ser humano somente para morrer em seguida? Mártires têm que ter uma causa nobre. O seu sofrimento não tinha nenhuma ideologia que justificasse o martírio. Ele, então, subiu as escadas do metrô, e avistou a praça. Os primeiros flocos de neve caíam. Ele compraria um sobretudo novo, numa loja de departamento em promoção.
Ele não tem nome. É só ele, até que volte a ser humano. E vai voltar. Com um novo sobretudo.

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