sábado, 6 de novembro de 2010

eu ainda me recordo dela

    Eu ainda me recordo dela, de seus cabelos dourados, platinados, de seus olhos azuis, circundados por minúsculas pregas que se deixavam ver nos sorrisos e que, a cada choro, se tornavam mais profundas. As pálpebras, no final de sua vida, lhe pesavam sobre os olhos, imprimindo-lhe a tristeza -que era artefato da alma- nas feições, para que estas fossem testemunhas daquela.
    Sua alma de criança vivera uma existência aterrorizante, cheia de tormentos e perdas. Sua maturidade viera forçada, forjada, num luto perpétuo, numa constante mágoa pelo mundo fantasioso de menina que não existira. Ela se sentia traída pela vida, que nem a paz lhe concedera e que, no entanto, prometera-lhe, há muitos anos, a felicidade absoluta. Ela nunca se esquecera da promessa. Mas,reconhecia  que não se recordava de quando a vida teria celebrado o compromisso. Teria sido nos primeiros anos idílicos da infância, antes que as figuras parentais ruíssem moral e financeiramente, não permitindo que, a posteriori, a morte deixasse alguma memória consoladora? Teria sido com as primeiras dores, que anunciaram uma compensação, ou com as derradeiras, que exigiam indenização? A vida nunca é ré, todavia. Ela nunca paga. Ela é credora. Ao menos, era assim que ela, no fim, refletia.
    Sua alma era doce ,todavia, porque suas esperanças haviam sido traídas e massacradas, mas ainda viviam em algum lugar secreto e obscuro de seu ser.
    Talvez, a alma de criança conservasse as ilusões mortas em formol, e, por isso, ela não fosse, de todo, amarga. Seu luto era,contudo, angustiante. Ela carregava seus cadáveres vida a fio, sem ter paz, como se andasse, sempre, sobre uma corda bamba. De um lado, a felicidade. Do outro, a morte. Após alegrias fugazes e tristezas duradouras, ela caiu para o lado da morte. Foi queda de causa natural. Não foi pulo voluntário. Durante a queda, ela não desejou uma volta .Ainda assim, a morte era mesmo de causa natural: era natural que morresse quem brigara, irreversivelmente, com a vida. As duas, ela e a vida, nunca se entenderam ou gostaram uma da outra. Minto: no início, a jovem amara a vida. Mas, foi só no início…o amor não correspondido transformou-se em querela que só terminaria mesmo em divórcio,concretizado pelo falecimento
    Eu me recordo, ainda hoje, de seus cabelos platinados ao vento e de seus olhos, que quase tudo compreendendo, nada entendiam.
    Eu me recordo de seu silêncio , na brisa do porto de Bergen. Eu escuto a ausência de suas palavras diante dos fjordes, e eu ainda sinto o seu olhar, que via sem enxergar, que transpassava aquilo a que se direcionava, pois fixava-se sempre em alguma dor, que eu nunca sabia  onde se localizava no espaço. É que a dor se localizava no tempo. E era para o passado que os olhos, sonâmbulos, se voltavam, perto do fim.

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