Eu ainda me recordo dela, de seus cabelos dourados, platinados, de seus olhos azuis, circundados por minúsculas pregas que se deixavam ver nos sorrisos e que, a cada choro, se tornavam mais profundas. As pálpebras, no final de sua vida, lhe pesavam sobre os olhos, imprimindo-lhe a tristeza -que era artefato da alma- nas feições, para que estas fossem testemunhas daquela.
Sua alma de criança vivera uma existência aterrorizante, cheia de tormentos e perdas. Sua maturidade viera forçada, forjada, num luto perpétuo, numa constante mágoa pelo mundo fantasioso de menina que não existira. Ela se sentia traída pela vida, que nem a paz lhe concedera e que, no entanto, prometera-lhe, há muitos anos, a felicidade absoluta. Ela nunca se esquecera da promessa. Mas,reconhecia que não se recordava de quando a vida teria celebrado o compromisso. Teria sido nos primeiros anos idílicos da infância, antes que as figuras parentais ruíssem moral e financeiramente, não permitindo que, a posteriori, a morte deixasse alguma memória consoladora? Teria sido com as primeiras dores, que anunciaram uma compensação, ou com as derradeiras, que exigiam indenização? A vida nunca é ré, todavia. Ela nunca paga. Ela é credora. Ao menos, era assim que ela, no fim, refletia.
Sua alma era doce ,todavia, porque suas esperanças haviam sido traídas e massacradas, mas ainda viviam em algum lugar secreto e obscuro de seu ser.
Talvez, a alma de criança conservasse as ilusões mortas em formol, e, por isso, ela não fosse, de todo, amarga. Seu luto era,contudo, angustiante. Ela carregava seus cadáveres vida a fio, sem ter paz, como se andasse, sempre, sobre uma corda bamba. De um lado, a felicidade. Do outro, a morte. Após alegrias fugazes e tristezas duradouras, ela caiu para o lado da morte. Foi queda de causa natural. Não foi pulo voluntário. Durante a queda, ela não desejou uma volta .Ainda assim, a morte era mesmo de causa natural: era natural que morresse quem brigara, irreversivelmente, com a vida. As duas, ela e a vida, nunca se entenderam ou gostaram uma da outra. Minto: no início, a jovem amara a vida. Mas, foi só no início…o amor não correspondido transformou-se em querela que só terminaria mesmo em divórcio,concretizado pelo falecimento
Eu me recordo, ainda hoje, de seus cabelos platinados ao vento e de seus olhos, que quase tudo compreendendo, nada entendiam.
Eu me recordo de seu silêncio , na brisa do porto de Bergen. Eu escuto a ausência de suas palavras diante dos fjordes, e eu ainda sinto o seu olhar, que via sem enxergar, que transpassava aquilo a que se direcionava, pois fixava-se sempre em alguma dor, que eu nunca sabia onde se localizava no espaço. É que a dor se localizava no tempo. E era para o passado que os olhos, sonâmbulos, se voltavam, perto do fim.
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