sábado, 20 de novembro de 2010
sexta-feira, 19 de novembro de 2010
Recomendo como leitura, já que as férias, para alguns, estão chegando...

Recomendo "Pontos de vista de um palhaço"(Ansichten eines Clowns), de Heinrich Boll, ganhador do Nobel de Literatura em 72.
VÔO DIRETO PARIS-OSLO
Ele entrou no quarto do Hotel, e eu lhe sorri, conforme virei minha cabeça em sua direção. Ele me contou, animado, como comprara os sapatos italianos que almejava há tempos. Eu repliquei que ele os devia ter comprado na Itália, e não em Paris. Mas, minha réplica foi doce, divertida e maternal. Como tudo quanto eu fazia, aliás. Pus meus braços ao redor de seu pescoço. Ele contemplava, por detrás de mim, a paisagem que a janela ostentava e, pela qual, pagáramos caro preço: a Praça da Concórdia. O céu estava acinzentado e a temperatura havia caído. Eu não queria sair do Hotel. Ele ainda não sabia, mas Paris, com seus monumentos megalomaníacos,a que atribuíram o significado de amor romântico, me assustava. E o frio não era convidativo a enfrentar meus medos.
Ele se colocou a experimentar os sapatos, feliz como um menino que acaba de ganhar um brinquedo novo. Eu me sentei na poltrona a contemplar-lhe. Também eu era um brinquedo novo, do qual ele se enjoaria. Eu bem sabia que a vida separa os que se amam e que nós não seríamos uma exceção. Eu bem sabia que aqueles momentos eram efêmeros na sua essência feliz. Eu bem sabia...ele, não. Ou se o soubesse, não se importava. Eu bem sabia que , à direita, ao longe, estava a Torre Eiffel. Eu não podia vê-la do quarto do Hotel, mas sua presença estava lá. E eu a temia, com sua petulância , com seu desafio, com o escárnio com que me olhava quando dela me aproximava. As muitas visitas a Paris e os muitos amores me haviam roubado a ingenuidade dos iniciantes, indispensável à coragem desprevenida de quem é feliz sem restrições.
Propus, num rompante:
----Que tal mudarmos de ares? Quem sabe Oslo? Há vôo direto daqui pra lá.
Ele riu, gargalhou:
-----Oslo? A antítese do amor? A chuva melancólica? Munch?
-----Não me sinto bem em Paris desde que entendi, em parte, como a vida marcha. Não me sinto bem aqui... Munch pode ser romântico...depende do ponto de vista.
------Você está louca, Luisa----disse ele numa nova gargalhada.--- Oslo é um assassinato do amor romântico numa lua de mel. Pra uma próxima viagem, quem sabe...
Eu o abracei novamente, quase que numa despedida, que eu sabia que só ocorreria anos mais tarde. Mesmo assim, abracei-o, também num pedido, calado e tolo, de que ele não se fosse jamais. Mas, quem era ele para contrariar a vida? A vida separa os que se amam. E só eu sabia o quanto o amava.
------Vamos à Place des Vosges?---disse ele como se nada tivesse ouvido do que eu falara. Eu respondi que sim, como se nada tivesse antes falado. Afinal, não se mata o amor antes que ele morra de causa natural...vive-o, até quando é possível. E se o possível fosse o eterno, eu seria grata aos Céus pelo milagre. Por vezes, milagres acontecem. Então, eu me arrumei, e pus-me a caminho da Place des Vosges.
No entanto, algo me dizia que havia, nesta vida, o tempo de Oslo e o tempo de Paris, e que, embora eu não devesse adiantar o primeiro, ele viria , certamente, com sua melancolia. Meu amado mesmo o falara: “Pra uma próxima viagem, quem sabe...”. Mas, tal viagem não seria a dois. E o vôo Paris- Oslo teria suas escalas...não seria um vôo direto.
domingo, 14 de novembro de 2010
A professorinha
Carlos rejeitou a ligação acusada no visor de seu celular, após dois toques . O semáforo estava vermelho. A ligação era de Sandra, com quem ele dormira na noite anterior, após alguns copos de uísque. Em nenhum momento, ele planejara permitir que o que tivera com aquela mulher fosse mais do que uma noite. E, por isso, não atenderia nenhuma ligação dela.
Impaciente com o sinal vermelho e atrasado para a reunião que presidiria, observou uma senhora que atravessava a faixa de pedestres vagarosamente, com andar inseguro, costas encurvadas e cabelos brancos presos num coque. Um colar de pérolas de muitas voltas parecia fazer seu pescoço curvar-se ainda mais. A senhora era elegante, mas de forma despretensiosa. Fora a Professora de Carlos Alberto na primeira série do ginasial.
Ah! Quanto ele amara aquela mulher, à distância, temeroso. Seu primeiro amor de menino...Como admirava o belo coque negro que ela ostentava, e seu porte altivo e seguro! Como amava seus olhos castanhos, amendoados e doces! E as unhas... ele ficava muito tempo a contemplar aquelas unhas grandes e pintadas, como se fossem um mistério a ser desvendado: mistério de ser mulher. A unha chegava a encurvar-se levemente, como se garra fosse, e aquilo o fascinava. A meia-calça, a longa saia preta, que não mostrava os joelhos, e as pérolas, sempre iguais, que impunham respeito, tudo era razão de veneração. Quem teria dado o colar se ela era solteira?- perguntava-se ele à época. E o ódio que nutria pelos outros garotos que perscrutavam, com olhares gulosos, o corpo daquela que só ele amava! Comentavam os meninos sobre os tornozelos bem feitos, sobre as ancas, sobre os seios empinados sob a blusa de seda. Carlos detestava o desrespeito com que olhavam e falavam daquela que ele queria conservar, em sua mente, só para si, etérea: dona Dalva. Corava quando ela lhe perguntava algo, perante a classe, e virava motivo de chacota dos colegas mais perspicazes que diagnosticavam o amor platônico do menino.
O sinal abriu e Carlos prosseguiu para sua reunião. Dona Dalva caminhou, alheia a tudo ao redor, até sua casa. Abriu o portão, destrancou a porta, adentrou a sala. Sentia-se cansada pelo calor e resolveu sentar-se no sofá por alguns instantes , antes de pegar um copo de água gelada. O gato olhou-a com olhos indecifráveis, próprios de gato, e ela desejou ter um cachorro. Desejou ter tido um filho. Lamentou não ter tido um marido. Sentia-se uma velha solteirona amargurada, que seria encontrada morta, comida pelo gato, muitos dias após morrer, por algum vizinho que sentisse o mau odor. Odiou o gato por alguns instantes, como se fosse ele seu algoz. Algoz? Ela fora sua algoz. Sempre bela, exigente, recusando pretendentes. Tantos lhe viam à mente agora, com o sabor do arrependimento. Alguns já haviam até morrido, mas não sem antes casarem-se com alguma amiga sua, de inferior beleza. De que lhe servira a beleza?-pensava ela. Nada restara da beleza àquela altura da vida. Fora ela a professorinha bela, recatada, moça de família, e morreria como velha feia, amarga, abandonada. Odiou-se. Havia sido ela mesma sua algoz. Sem saber por que, num daqueles momentos a que os crédulos atribuem misticismo, abriu um livro de Flaubert que sempre amara. Do livro, caiu uma foto. Com dificuldade, ela a retirou do chão e a contemplou: era seu cunhado, em traje de gala, com seu irmão. Os dois sorriam na fotografia. E Dalva, num segundo, entendeu sua existência, miraculosamente: ela se guardara solteira porque sempre amara, à distância, seu cunhado. Este até lhe fizera propostas, mas ela fora fiel à irmã, e nunca cedera ao seu amor. Nunca o abandonara, tampouco. A ele também, fora fiel, sem o saber. Amara-o até o fim. E, mesmo agora que a morte levara o amado, ainda o amava, secreta e tristemente. A foto lhe falara tudo isso num segundo!O sorriso aberto dele, em preto e branco, lhe dissera tudo! Lamentava, é claro, o amor desperdiçado, não usado. Mas sabia ter amado mais do que muitas mulheres casadas jamais o saberão. Ela não deveria ser amarga, pois seu coração nunca fora árido. Pelo contrário, fora mais apaixonado do que o de sua própria irmã, a que a sociedade intitulava de feliz senhora casada, mãe de família. O que sabia sua irmã sobre o amor, no entanto? Nada. Sabia ela sobre gerência e administração do lar, como o sabe um empresário sobre sua empresa. Amava os filhos, é claro. Mas o marido fora apenas o sócio fraternal da empreitada.
Dalva compreendeu, e foi grata por ter podido amar, antes de morrer, mesmo sem ser amada como queria, mesmo que tal amor tivesse ficado em suspenso por toda uma vida. Ainda assim, era amor. E qualquer tipo de amor valida uma existência. E existências validadas não temem gatos sinistros, que rondam e espreitam.
O Professor
Naquele mês, o Professor de História tivera um infarto inesperado, que o confinara ao Hospital da capital mineira, a 418 km da escola. A diretoria do colégio não tardara, todavia, em providenciar um substituto provisório e em ordenar que, no início de todas as aulas, se orasse uma Ave-Maria pela recuperação do bom , velho e dedicado mestre Godofredo, que lutava pela vida,exilado da sua cara cidade.
O substituto chegava justamente de Belo Horizonte. Chegava calado, com olhos azuis e parados, com mistério em tudo quanto fazia ou não fazia, e com dentes de quem fumava. Numa escola em que os mestres eram todos mulheres ou velhos senhores propensos a ataques cardíacos, aquele recém-chegado estranho fora capaz de causar comoção dentre as alunas, que, temporariamente, até se esqueceram dos alunos da Medicina e da Engenharia. Quase todas o admiravam, num amor platônico e juvenil. Discorriam, nos intervalos, sobre o tom do azul de seus olhos, sobre seu jeito de andar, sobre seu porte esguio e elegante, sobre o charme com que fumava antes de adentrar o pátio da escola. Não tardaram em descobrir onde morava e que ele residia só. Puseram-se, então, a conjecturar se seria viúvo ou desquitado, se teria gatos, que tipo de livros leria, que discos ouviria e o que teria lhe sucedido em Belo Horizonte para que viesse parar naquele fim de mundo. Teria ele matado alguém? Chegaram a dizer que ele matara a esposa, porque a flagara em adultério. Teria ele engravidado a filha de um político famoso, tendo que fugir da capital, obrigado pelo pai da moça? Haveria ele sido trocado pela esposa e, não suportando a humilhação, preferira exilar-se nos confins de Minas? As mais românticas meninas explicavam que ele era um celibatário porque não encontrara o grande amor e que gastara os anos anteriores àquela ida à pequena cidade mineira, cuidando da mãe tuberculosa, que morrera um mês antes do infarto do substituído professor.
Eram tantas as fantasias, que quase ninguém percebia que o homem era triste. Os cabelos eram brancos, apesar de ainda ser jovem, e não via ele nisso o charme que as alunas viam. Ele era de poucas palavras, o que não costumava condizer com o ensino de História nas escolas. Mandava as alunas lerem os capítulos que determinava, e ciente do frenesi que causava, nem um pouco deixava o próprio ego inflar-se. Ao final de algum tópico importante da matéria, fazia uma conclusão lacônica e ambígua, que ninguém compreendia. Tudo seu era assim...lacônico, misterioso, ausente...O azul venerado de seus olhos só se acendia quando falava da Revolução Russa. Este era o único momento em que ele era capaz de verbalizar seu conhecimento com alguma fluência. As alunas, intuindo a paixão daquele por quem eram apaixonadas, estudaram, com afinco, a história dos bolcheviques, Lênin, Marx. Houve até um ou dois pais indignados com a versão que suas filhas haviam recebido, na escola, sobre a história da União Soviética. Até pensaram em vingar-se, em agir, para protegerem suas meninas. Mas, os tempos eram outros e só se falava em Anistia.
Aquele professor, no entanto, carregava a melancolia dos que nunca seriam anistiados da infelicidade. Nenhuma aluna, conscientemente, o percebia. Logo, nenhuma delas se ocupava disso. Viam charme onde só havia lutos. E o homem via criancices tolas onde havia tanto amor platônico. É claro que havia também as alunas mais céticas, que não se renderam à admiração apaixonada. Preferiram ocupar-se em criticar a falta de didática do Professor, juntando-se ao coro dos meninos enciumados, que se ocupavam também em denegrir a aparência física do homem. Mas, de qualquer forma, a verdade é que a maior parte das alunas torcia para que seo Godofredo não se recuperasse tão cedo.
No entanto, o velho homem, tragicamente, se recuperou. E as meninas fizeram luto pela vida do antigo Professor. O substituto fora embora, sem se despedir e sem dizer o futuro paradeiro. Houve quem falasse que ele retornara para Belo Horizonte. Houve quem especulasse Rio de Janeiro e outras, ainda, que dissessem que adoecera e fora para uma cidade de águas termais recuperar-se.
As meninas continuaram a não aprender História: se antes faltavam palavras a esta explicar, agora, faltava interesse em as explicações ouvir...Uma ou outra rapariga ainda rezava, secretamente, Ave-Marias pelo retorno do belo Professor. Mas não teve jeito...seo Godofredo não morreu tão cedo...
Foi só Dorinha quem, vinte anos depois, já mãe de um guri, avistou, de seu carro, o transeunte em Belo Horizonte, e reconheceu-o:era o amado Professor, com quem nunca tivera coragem de falar, como sonhara à época em que o via diariamente. Os anos pouco fizeram à aparência do homem. Mas, muito fizeram ao olhar de Dorinha: só agora, ela via que a elegância era uma magreza doentia , que o mistério era um jeito taciturno, que o silêncio era uma mágoa sem grandes filosofias ou inteligência, e que o azul era apagado. Só agora ela via. E, ao ver, sentiu-se velha. Terrivelmente velha. Como a história dos bolcheviques. Por vezes, envelhecem mais rapidamente os olhos que vêem do que aquilo que é visto.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
domingo, 7 de novembro de 2010
sábado, 6 de novembro de 2010
Jesus e a maior Revolução de todos os tempos
Eu sou muito falha para ser digna de escrever sobre Jesus. Mas, por outro lado, preciso fazê-lo.
Existe uma faceta do cristianismo que me fascina, e, sobre ela, quero redigir algumas considerações.
Eu não sou historiadora, mas permitam-me a ousadia de fazer algumas reflexões:
Os hebreus introduziram, na cultura humana, a maravilhosa ideia de que há um Deus único, que Se preocupa, amorosamente, com os seres humanos. Esse Deus Criador personifica, no judaísmo, o Pai-lei, num sentido amoroso: a lei seria o norte a ser seguido a fim de que se alcançasse paz, felicidade, bênção. Portanto, a finalidade da Lei, no Antigo Testamento(e também no Novo) é de cunho misericordioso, pois é o bem-estar do homem, e não a subserviência a caprichos de uma divindade ou a interesses de uma elite.
O Novo Testamento e, portanto, o cristianismo não abolem os Dez Mandamentos, mas confere-lhes nova vida, um novo meio de aplicação. A faceta amorosa de Deus, em Jesus, é levada às últimas consequências, quando Este morre para salvar a todos nós da morte eterna que nos esperava após o fim da existência do nosso corpo corruptível. A faceta amorosa e misericordiosa divina também se mostra e muda, de forma radical, o mundo quando Jesus estende as mãos aos marginalizados, aos discriminados, àqueles que, pela aplicação tacanha da letra da lei, estavam condenados e excluídos. Isso é profundamente revolucionário na história das religiões. Com Jesus, o cobrador de impostos pode se tornar discípulo, a prostituta pode ser a primeira a ver Cristo ressuscitado, os leprosos podem se aproximar do Mestre e obterem cura, Zaqueu( que personifica o corrupto poderoso) pode jantar com o Rabi, a adúltera não é apedrejada... O Amor e Misericórdia de Cristo,conferindo verdadeiro sentido à lei, a meu ver,são a maior revolução da Humanidade. Estou a dizer que cada um daqueles a quem a misericórdia foi concedida pôde continuar a pecar? Não. Mas digo que antes que parassem de pecar, o Mestre deles se aproximou e os perdoou. Isso é a Misericórdia. Isso é o Amor. Isso é Revolução: que Deus nos busque antes que O busquemos e nos ame antes que O amemos e que peça que façamos o mesmo com nossos irmãos.
Eu faço isso? Não. Infelizmente, não. Mas, se admiro tanto esses princípios, posso vir a aplicá-los algum dia, com coerência e constância, mesmo que sem perfeição.
Pode-se condenar o pecado, mas somente se amar-se, profundamente, o pecador. E não se pode, jamais, condenar a pessoa deste. Afinal, o que é cada um de nós senão pecador e quem ousaria dizer que peca menos do que seu irmão? Quem sonda os corações senão Deus? E onde residem os pecados senão nos corações?
You are not missing much...
It is very difficult to write short stories, poetry or novels, in a language that is not our own language. And why is is it so hard? Because of the grammar and the vocabulary? Not only...It is difficult because one learns how to love, to be loved, to suffer and to have joy in the native language. This language is indeed like a mother: "mother tongue", that teaches one how to express oneself and understand most of feelings, since the early days of life.
So, I am sorry abou the visitors from other countries. I love English and I find French very charming. I cant´t speak other foreign languages(for now). Maybe, one day, I could write in another language...but, it is already hard enough to write in my own...
Merci/ Thank you.
In any way, you are not missing much...hehe
So, I am sorry abou the visitors from other countries. I love English and I find French very charming. I cant´t speak other foreign languages(for now). Maybe, one day, I could write in another language...but, it is already hard enough to write in my own...
Merci/ Thank you.
In any way, you are not missing much...hehe
"Enquanto houver sol", Titãs
Num "momento Titãs" (rsrs): "a sós, ninguém está sozinho(...)quando não houver desejo, quando não restar nem mesmo dor, ainda há de haver desejo em cada um de nós onde Deus colocou".
Paris
Paris não é uma cidade; é um sentimento. Não necessariamente de amor romântico...cada um tem uma Paris diferente nesta vida.
Cada um
"Cada um sabe sabe a alegria e a dor que traz no coração"(Titãs, em "Epitáfio"). Então, é melhor julgar só quando se for togado ou designado parte de júri popular...no dia-a-dia, sem toga, é melhor julgar só os atos, e não as pessoas.
uma conversa com o leitor do blog
Os personagens são melancólicos nos contos? Sim, sem dúvida.
Flaubert disse "Madame Bovary c`est moi". É claro que há algo do autor em cada personagem criado e , aqui, não seria diferente.
A melancolia é uma faceta da vida. Ela não é a vida. Escrever sobre ela é terapêutico.Ler sobre ela também pode ser terapêutico. Mergulhar nela é patológico e requer que se procure ajuda. A vida é feita também do amor, do trabalho, da arte, da fé, dos amigos , familiares, da política. A vida não é só o que passou. É o hoje e o amanhã. O imponderável surpreende não só para o mal, mas também para o bem.
Creio que a Arte e a religião são boas redenções para a melancolia. Creio, profundamente, que há um Deus bondoso por detrás do imponderável. Creio, profundamente, que este Deus, por cada um de nós, crente ou não, vela a cada passo de nossas vidas. Creio que Ele se compadece de nossas dores. Creio que elas não duram para sempre. Creio na capacidade do homem de resistir, de ser alegre e feliz, mesmo que essa felicidade não seja um estado permanente. Creio que tal capacidade é um dom de Deus e que está latente em cada um de nós. Se em nada disso cresse, não teria libido para escrever, não sorriria, não estudaria, não trabalharia, não amaria, não oraria.
Os contos mostram momentos muito verossímeis de melancolia e de pessoas melancólicas. Mas, mesmo tais pessoas experimentam momentos outros de felicidade e alegria, em que a melancolia fica suspensa.A vida não é um samba de uma nota só. O problema é que é difícil escrever sobre a alegria: ela é monótona, quando escrita. A alegria é para ser VIVIDA. Não há tempo para escrever quando se tem que ser alegre. É a dor que requer elaboração, significação, simbolização. É a dor que exige que se desvende seus porquês. A alegria é mais simples. Ninguém fica se indagando, em tom reflexivo: "por que estou alegre, meu Deus? O que se passa?"
Quando a melancolia leva a uma depressão clínica, à desesperança, à falta de vontade de viver, deve-se procurar um psiquiatra. Há tratamento. Há sempre uma saída. Sempre, mesmo quando se pensa que não há.
O "conto" de hoje é: saiam, vão ao Cinema(assisti ao novo filme do Jabor na semana passada), tomem sol, caminhem, chamem um bom amigo para um bom café e joguem conversa fora, ou olhem, pela janela, para o Céu e falem com Deus. Toda prece é ouvida. Enfim, vivam um conto de alegria e escrevam os de tristeza nos diários ou deles façam um relato num divã. Ou criem um blog...rsrs
Uma frase do Nanini, no filme do Jabor, é ótima:" a vida gosta de quem gosta dela".
Que Jesus abençoe a todos os leitores hoje e sempre, para que gostem da vida...apesar das melancolias...rsrs.
Os trapos
Hoje, ao passar por um “porta-entulhos”, repleto de lixo, joguei um saco de plástico com as fezes de meu cachorro. Espiei, brevemente, o conteúdo daquele grande recipiente,daquele lixão. A única imagem que gravei, em meio ao caos da sujeira e da deterioração, foi a de um pano azul, desgastado, um trapo.
E sabe o que pensei? Que os trapos, um dia, já vestiram pessoas, já compuseram vestidos ou calças, investidos de beleza, de estética. Já testemunharam a vida, e, com o pretexto de se amoldarem aos corpos, já presenciaram as almas que choram, que riem, que amam , que odeiam, que sonham , que se desesperam, que dão e tiram o valor de si mesmas e do que as cerca.. Os trapos já foram despidos de alguém, com delicadeza. Já viram a nudez do banho, do dormir, do amar.Os trapos já tiveram armários confortáveis. Os trapos já foram vestidos por alguém, que os escolheu, dentre outras vestimentas. Os trapos já foram contemplados por olhares vaidosos no espelho, quando eram dignos de serem portados. Os trapos foram comprados por alguém que a eles atribuiu valor. Os trapos , agora, tomam chuva no lixão e vão se desintegrar em trapos cada vez menores, mais e mais sujos, encardidos. Os trapos vão perder a cor, eventualmente.Os trapos ficarão irreconhecíveis.Os trapos vão virar pó e, num grande devaneio, recuperarão sua dignidade, ao se tornarem a matéria-prima dos corpos vivos que embalaram, quando eram , eles mesmos, vivos. De qualquer forma, os trapos têm um pouco da dignidade da vida das almas que testemunharam..
Natália
Natália contempla o uísque amarelado no copo com gelo. Os tranqüilizantes estão a entorpecer-lhe, como num ninar maternal e perverso. Em breve, a certeza de ter fracassado se tornará só um pensamento confuso, em meio à turvação da consciência. O desespero será dissolvido no álcool e a angústia da iminência de uma inexistência egóica vai se dissolver nas gramas alcoólicas. Nesses momentos de sedação, Natália crê que não haverá o amanhã, com sua ressaca, mas ele é fiel , e sempre vem acordar-lhe com as mesmas notícias da véspera. O mal estar era previsível, mas havia uma ameaça implícita nele, a cada dia mais cruel: a ameaça da morte psíquica e física. A dor era solitária. Exprimir suas causas era humilhante, insuportável. A confusão de sentimentos não permitia, tampouco, que as causas fossem óbvias.
Natália tinha uma hemorragia na alma, que não era passível de ser estancada. Sua fragilidade comportava, num paradoxo de difícil compreensão, uma força que a fazia sobreviver, todavia, como se um curativo de segunda mão controlasse o sangramento.
Antes de adormecer num torpor, Natália se lembrara de que sua irmã acabara de se tornar docente da Neurologia de uma grande Universidade Estadual. Fora a mãe que lhe comunicara a notícia naquela manhã. A última imagem de Natália antes de se entregar ao sono forçado quimicamente, foi da redação do vestibular em que ela tirara dez, e, sua irmã, que só passara em Medicina, após duas tentativas malogradas, tirara cinco. Quão inúteis são as convenções humanas-pensou ela- antes que a mente se aprofundasse no inconsciente, livremente.Inteligências mal direcionadas, erros de trajetória, escolhas mal feitas, azar…a cabeça girou em torno dessas palavras terríveis, até que se rendeu ao sono. Por dez horas, o consciente descansaria e o inconsciente, confessaria, fosse para o bem ou para o mal. O consciente se encarregaria de calar o que o inconsciente falasse de insuportável antes do despertar, todavia.
Como os despertares não são sempre iguais, quem sabe se Natália não aprende ainda, um dia, a sobreviver a si mesma?
"It`s time now to learn Portuguese"(menção à música de Os mutantes)
Eu recomendei a um amigo estrangeiro que ele aprendesse português. Ele respondeu, com ar melancólico: “Eu preciso aprender “a vida”. Eu repliquei prontamente: “Não! Português é muito mais fácil. Além do mais, leva-se uma vida inteira para aprender a vida”. Não adianta ter pressa…
Reflexão a partir de frase do filme de Arnaldo Jabor
O sábado à noite é uma ilusão. Ilusão de quem dança, de quem samba, de quem bebe álcool misturado com sentimentos, de quem ama por uma noite, de quem quer viver toda uma vida num momento. Ilusão de quem espera a alegria, só para constatar que ela é sempre hóspede passageiro, sem residência fixa. Ilusão de quem acha que o domingo não vai amanhecer. Ilusão de quem pensa que, no próximo sábado, haverá mais dança, mais samba, mais amor e que, finalmente , a alegria virá para ficar.
O sábado à noite é uma ilusão. É uma promessa que se repete a cada sete dias e termina num domingo de manhã.
Dai a César o que é de César
Blanca é velha o bastante para reconhecer engodos e nova o bastante para os rejeitar. Idade difícil. E ela caminha pelas ruas de Havana em 1959, sem saber que os anos lhe tirarão um pouco da lucidez honesta e sincera que eles mesmos lhe trouxeram.
São tempos de mudança em seu país. Há medo e euforia por toda parte, mas, a ela, cabe só o medo. Medo de si, medo dos outros, medo dessa essência humana que a toda ideologia corrompe. Dizem alguns que são as ideologias que maculam o homem, mas ela não consegue crer: acha muitas idéias bonitas e diversas ações humanas reprováveis.
Aqueles que se intitulam cristãos vivem na conservadora elite, sempre alienada aos que menos têm, aos que nada têm e que, no entanto,justamente por nada possuírem, darão legitimidade para que uma minoria mude o rumo daquela nação. E não é qualquer nação: é a pátria de Blanca! O comunismo parece-lhe um cristianismo sem Cristo, colocado em fórmulas e leis tristes, como versos que não formam uma poesia ou como uma música sem melodia, ou, ainda, como uma aquarela toda cinza. Mas, o que fazer, se a tantos causa frenesi? Há muitos que do comunismo se enamoraram e o rechearam de dogmas, de hierarquia eclesial, de fervor , de santos e demônios. Têm os enamorados seus pastores e são eles, rebanho fiel. A esquerda tem um papa e ele, por sua vez, tem bispos. O que fazer?
A História seguirá seu rumo conforme o arbítrio dos homens. E Blanca dará a César o que é de César. E olhará para o Céu, ou para alguma flor triste num jardim abandonado, quando a alma sentir que é preciso dar a Deus o que é de Deus.
E que Deus julgue os Césares que interferirem no que o homem deve dar a Deus
O que aprendi
As mais importantes coisas que eu aprendi, não o fiz em famosas Instituições. Nunca fui afeita a Instituições, embora não despreze sua importância para a prática profissional, por exemplo. Mas tampouco estava em livros o que ,de mais precioso, aprendi. Não o encontrei em Paris, ou pelo menos, não onde, supostamente, o deveria ter encontrado na capital francesa. Não o ouvi de quem acumulava muitos títulos.
Aquilo que aprendi de mais caro está nas minhas memórias, nas emoções que elas evocam, na maneira como a elas eu dei significado, como as concatenei na construção mental presente do que fui e vivi até hoje. Meus aprendizados têm vestígios remotos em algumas fotos, que contemplo com carinho. Meu aprendizado é muito intimista e, ousaria dizer, pretensioso. Não é pieguice dizer que a vida é uma escola. Mas leva tempo para se transpor o que de piegas há na frase, e alcançar seu significado.
O aprendizado formal é essencial para o exercício de quase todas as profissões do mundo e eu não o desprezo. Mas, só com ele, eu não conseguiria escrever, nem viver, na verdade.
No silêncio e na solidão, Deus sopra ao espírito algumas verdades. Mas não me é possível viver no "deserto" sempre. Minha alma não é desse tipo. No entanto, não me é viável, tampouco, dispensar a caminhada pelo deserto em alguns momentos. Eu perderia a mim mesma se a desprezasse. Eu perderia Deus, embora Ele não me perdesse nunca.
Os desertos são valiosos, desde que os entendamos como passagem e não como chegada. Há de se ter o cuidado de não permitir que eles se tornem um estilo de vida ou que nos mergulhem em melancolia
As Cordilheiras se chamam Lídia
Alfredo sabe que está doente, conforme caminha pelas ruas de Santiago. Ele sabe que seu corpo já dá os primeiros indícios de querer abandoná-lo. E ele não irá procurar um médico, porque também a alma deseja partir. É um desejo calmo, resignado, a que se oporiam amigos e parentes se acaso ele ainda os tivesse. Além do mais, no corpo de 98 anos, Alfredo já não se vê. Espelhos desmentem suas memórias e a imagem neles refletida parece a de um estranho, a quem o passado é detalhe insignificante. Nas rugas, Alfredo não encontrou a marca do que viveu, como alguns lhe haviam dito que ocorreria. No rosto envelhecido e no corpo fraco, encontrou a um estranho, que enclausurava o verdadeiro Alfredo. Quase um inimigo.
Alfredo sempre imaginara, poeticamente, que ao começar a deixar esta vida, sua mente devanearia ao passado e nele mergulharia nostalgicamente. Mas, equivocara-se. O primeiro amor, a primeira dor, os pais, a infância,os irmãos, a falecida esposa, a filha ,que com ele não mais falava ,eram figuras distantes. As Cordilheiras eram silenciosas também. E Alfredo sentiu-se só. E temeu nada encontrar depois que partisse. Pensava ele: “Nunca toquei a neve ao topo das Cordilheiras. Nem nunca as tocarei. Mas, sempre as vi, à distância, e elas sempre estiveram lá, testemunhando minha vida nesta cidade”. Talvez, o que há após a morte seja como essa neve.
Alfredo desmaiou numa calçada, e um garçom o acudiu. Chamou-se o resgate e ele foi admitido, inconsciente, no maior Hospital de Santiago. Horas mais tarde, a consciência despertou do sono torporoso numa cama hospitalar, e os olhos embaçados contemplaram a jovem enfermeira que mexia no soro. Alfredo olhou fixamente no azul dos olhos da moça. Esta estava tão preocupada em acertar o gotejar da solução endovenosa, que nem percebeu o abrir discreto das pálpebras de seu paciente. Alfredo não se mexera, nem nada falara. Os olhos contemplados eram os de Lídia, sua falecida irmã, que o criara depois da morte precoce da mãe. Sem dúvida, eram aqueles olhos azuis os de Lídia. E Lídia montava a árvore de Natal na casa em que tantos velórios houvera, e Lídia assava o rosbife como Alfredo gostava. E Lídia era terna, tinha mãos suaves, que afagavam os cabelos desgrenhados do medroso irmão, e proferia palavras que tinham o poder de abraçar maternalmente. Sim, sem dúvida, eram os olhos de Lídia, os daquela enfermeira. E Alfredo sentiu paz: a neve sempre estivera lá, nos picos mais altos das Cordilheiras, mesmo no verão. E não era inatingível , já que alguém permitira que os olhos de Lídia viessem povoar o silêncio de sua velha mente. E Alfredo fechou os olhos para não perder a imagem do azul do olhar da querida irmã, e pensou que as Cordilheiras deveriam se chamar Lídia.
Alfredo sempre imaginara, poeticamente, que ao começar a deixar esta vida, sua mente devanearia ao passado e nele mergulharia nostalgicamente. Mas, equivocara-se. O primeiro amor, a primeira dor, os pais, a infância,os irmãos, a falecida esposa, a filha ,que com ele não mais falava ,eram figuras distantes. As Cordilheiras eram silenciosas também. E Alfredo sentiu-se só. E temeu nada encontrar depois que partisse. Pensava ele: “Nunca toquei a neve ao topo das Cordilheiras. Nem nunca as tocarei. Mas, sempre as vi, à distância, e elas sempre estiveram lá, testemunhando minha vida nesta cidade”. Talvez, o que há após a morte seja como essa neve.
Alfredo desmaiou numa calçada, e um garçom o acudiu. Chamou-se o resgate e ele foi admitido, inconsciente, no maior Hospital de Santiago. Horas mais tarde, a consciência despertou do sono torporoso numa cama hospitalar, e os olhos embaçados contemplaram a jovem enfermeira que mexia no soro. Alfredo olhou fixamente no azul dos olhos da moça. Esta estava tão preocupada em acertar o gotejar da solução endovenosa, que nem percebeu o abrir discreto das pálpebras de seu paciente. Alfredo não se mexera, nem nada falara. Os olhos contemplados eram os de Lídia, sua falecida irmã, que o criara depois da morte precoce da mãe. Sem dúvida, eram aqueles olhos azuis os de Lídia. E Lídia montava a árvore de Natal na casa em que tantos velórios houvera, e Lídia assava o rosbife como Alfredo gostava. E Lídia era terna, tinha mãos suaves, que afagavam os cabelos desgrenhados do medroso irmão, e proferia palavras que tinham o poder de abraçar maternalmente. Sim, sem dúvida, eram os olhos de Lídia, os daquela enfermeira. E Alfredo sentiu paz: a neve sempre estivera lá, nos picos mais altos das Cordilheiras, mesmo no verão. E não era inatingível , já que alguém permitira que os olhos de Lídia viessem povoar o silêncio de sua velha mente. E Alfredo fechou os olhos para não perder a imagem do azul do olhar da querida irmã, e pensou que as Cordilheiras deveriam se chamar Lídia.
A SENHORA COVARDIA
A covardia tem suas razões…não vou discutir com ela, por ora. Deixo-a em paz. É ela uma senhora gorda, preguiçosa,lenta, de cabelos brancos presos num coque preciso,vestida num preto sensato, cheia de dizeres populares sábios, prolixa e enfadonha. É essa a senhora covardia. Inspira algum respeito e um pouco de pena… é melhor não contrariá-la, já que vivemos em paz, há tantos anos, debaixo do mesmo teto
DOIS PANOS DE PRATO
Uma menina me vendeu dois panos de prato, e me abençoou. Se eu fosse o Chico Buarque, para ela faria uma música. Mas, como sou só eu e não estou inclinada a ficções hoje, escrevo que a menina-moça era morena e tinha olhos sinceros, daqueles que não se vêem quando alguém vende algo. Ela me explicou que o pano de prato era cem por cento algodão, como se isso fosse ser um dado decisivo para a aquisição. Ela leva a sério seu ofício.
“É difícil ser humano”, frase do filme City of Joy
Mas, é milagroso, ao mesmo tempo.
“É difícil ser humano”, frase do filme City of Joy
Mas, é milagroso, ao mesmo tempo.
E se?
E se a vida for comprar um jornal e comer um sanduíche, como disse Robert Redford, em Havana?
Ah! Mas, vem uma maldita voz megalomaníaca e melancólica, que grita: é muito mais! E me faz escrever…
Acontece que, no mesmo filme, Robert Redford fala que o bater de asas de uma borboleta num extremo do mundo pode gerar um furacão noutro. Assim se sucede comigo: alguns detalhes factuais muito pequenos geram algo de muito intenso, no meu interior, que transborda numa prosa pretensiosa e sem jeito…São os furacões arrogantes de minh`alma que me fazem escrever.
Ah! Mas, vem uma maldita voz megalomaníaca e melancólica, que grita: é muito mais! E me faz escrever…
Acontece que, no mesmo filme, Robert Redford fala que o bater de asas de uma borboleta num extremo do mundo pode gerar um furacão noutro. Assim se sucede comigo: alguns detalhes factuais muito pequenos geram algo de muito intenso, no meu interior, que transborda numa prosa pretensiosa e sem jeito…São os furacões arrogantes de minh`alma que me fazem escrever.
Uma canção me consola: "alegria, alegria", de Caetano Veloso
Quando esperava o Eurostar para Londres, já há muitos dias sentia falta de meu país. E talvez por, em meu inconsciente, saber que Caetano ficara exilado na Inglaterra e que uma música sua chama-se “London, London”, eu não conseguia parar de ouvir “Alegria, alegria”, no café da Gare parisiense…Esqueci-me dos Beatles, por completo. Só os ouviria em solo brasileiro, quando tivesse saudades de Londres…
Até hoje, “Alegria, alegria”, me remete ao Reino Unido…Que memória idiossincrática!
um filhotinho para Ricardo
Ricardo enterrara o pai. E nem sabia , ao certo, o que era morrer . Não sabia o que acontecia ao corpo debaixo da terra. Não entendia o que era alma. Tentava imaginar o que era o céu.
Com pena da orfandade precoce, sua mãe, dona Ana, comprou-lhe o cachorro que ele sempre pedira. E, enquanto ela cultivava a amargura da viuvez, Ricardo se alegrava com o filhotinho. Só tinha olhos para aquele bichinho. Vivia cada peraltice do animal como se fosse ele mesmo o cachorrinho. Corriam, rolavam juntos no chão. Ricardo era só alegria, como nunca dantes vista. Dona Ana amargurou-se com a falta de luto do filho. Passou a odiar o cachorro. Ofendeu-se com a alegria desrespeitosa de Ricardo. Um dia, ela esqueceu o portão de casa aberto e Bily fugiu. Ela o procurou com afinco, antevendo o drama que Ricardo faria quando descobrisse que seu amigo fugira. Bily havia sido atropelado. Dona Ana pagou um veterinário, mas o cãozinho não resistiu.
Ricardo parou de brincar, de comer e, depois, de dormir. Só chorava. Dona Ana esqueceu o próprio luto para socorrer o enlutado filho. Ricardo teve febre. Dona Ana comprou Totó. A febre cedeu. Mas Ricardo nunca brincou com Totó como brincara com Bily. Suas brincadeiras ficaram mais comedidas. Ele, por vezes, brigava com o cachorro e até lhe dava umas palmadas. E Dona Ana não mais se sentiu ofendida pela alegria de Ricardo. E Ricardo começou a entender o que era morrer, e acreditou que os cães tinham alma e que havia um céu especial para eles. E teve saudades do pai e de Bily. E amargurou-se porque a mãe deixara o portão aberto. Mas nada nem ninguém pôde lhe tirar a idéia de que, em algum lugar, seu pai e Bily brincavam juntos. E dona Ana teve que tolerar a esperança do filho.
um remédio para dormir
A noite era escura. Seo Adolfo perdera o sono. Levantara-se , pusera os óculos e o chinelo. Fora à varanda. Contemplara a lua. A mente dava indícios de que queria vagar para algo há muito perdido. Seo Adolfo lutava para que ela não fosse lá. Resistia, se agarrava a tudo de concreto quanto houvesse ao redor: ao grito da cigarra, à saudação da coruja, ao branco prateado lunar, às estrelas pequeninas e cintilantes, ao breu. E, de repente, o breu levou-o lá, aonde ele não queria ir. Ele era jovem. Amava Ana. Sonhava em ser feliz com ela. Ele era um moço mirrado num terno alugado, com um sorriso gratuito, que posava para a foto com a esposa. A foto amarelou. Ana nunca se entregou de verdade às suas carícias. Eles tiveram dois filhos, como quem faz uma transação comercial, numa sociedade harmoniosa. Ana virou filha e, depois , mãe: “Adolfo, não anda descalço, que vai pegar gripe”; “Adolfo, não come tanta gordura, que vai entupir as veias”; “Adolfo, tem que arrumar o jardim”. E, então, houve Carmem, e Carmem era carmim, era fogosa, era a paixão. Mas Carmem não se apaixonava; ela fazia apaixonar. E Adolfo, pressentindo que daria mais do que receberia, a colocou na gaveta dos casos informais. Não sentiu culpa pela traição. Estava suprindo suas necessidades, como o menino que tem fome e pega a maçã na macieira do vizinho. Fez amor e não amou. Quando amou, não pôde fazer amor. E, no final, já nem sabia o que era uma coisa ou outra. E agora que o corpo não mais sabia e o coração não mais se lembrava de como amar , Adolfo perdera o sono. E a noite era escura. Quando amanheceu, deitou-se ao lado da esposa adormecida. Ela não era bonita como antes, os anos lhe trouxeram alguns quilos e flacidez. Mas os cabelos pintados ainda eram sedosos e os olhos, apesar das rugas que o circundavam, ainda eram os mesmos. Seo Adolfo acariciou-lhe o seio. Dona Ana acordou sobressaltada, com o coração disparado. Olhou Adolfo com estranhamento. Ele sorriu sem graça, virou-se para o lado e fingiu adormecer. Pensou em pedir, naquele dia, ao seu médico, um remédio para dormir. Afinal, as noites eram escuras. Mas, não houvera tempo.Pela manhã, seo Adolfo infartou e a última coisa que viu foi o rosto de Ana e , quando já não tinha forças para abrir os olhos, pensou em Ana. E , quando já não tinha clareza para pensar, delirou sobre Ana. E Ana preparou-lhe um belo velório e derramou-lhe lágrimas sinceras, e rezou Missas e terços. E passou a ter insônia, e viu que as noites eram escuras, e que o breu a levava aonde ela almejava saudosamente voltar. Mas percebeu que o amanhecer era solitário e que o dia pesava quando não se repousava à noite, e pensou em pedir ao médico um remédio para dormir.
Francisco e Maria
Maria era empregada doméstica. Perdera a mãe cedo. Fora criada por uma tia que lhe batia. Seu tio a estuprara. Maria era estéril, era seca, era dor surda. Maria limpava, odiava,passava,amaldiçoava, cozinhava. Maria detestava as patroas. Sentia que elas, num ato de ganância, tinham-lhe roubado, do destino, a quota de felicidade que lhe pertencia, para terem uma quota extra. Cada luxo, cada extravagância, cada ordem , cada reprovação eram motivos para ódio. Os elogios e os carinhos eram motivo de amargura. Maria era solo pedregoso, impermeável; era árida como o sertão em que nascera.
Mas havia Francisco, o porteiro. E Francisco não questionava o destino. Ele acatava as ordens e as dores com zelo. Era um zelador. E Francisco fora amado, junto com outros doze irmãos e dois cachorros, e aprendera a amar. Não, não aprendera a escrever. Não, não aprendera a carpir, nem a construir móveis ou casas.Mas aprendera a amar. Francisco era vesgo e gordo. Mas sempre conseguia conquistar alguma senhora sem atrativos e se contentava com a conquista. Um dia, ele convidou Maria para sair e ela ,que queria uma refeição grátis, aceitou. E ela, que nunca amara um homem, entregou-se àquele. E, no final da noite, sentiu-se mulher e achou que os cabelos de Francisco eram bonitos e que seu peito era viril. E, no dia seguinte, conseguiu sorrir duas vezes, e até ouviu uma ordem sem maldizer a patroa por dentro. Francisco não sabia, mas era milagreiro, além de zelador. Santo Francisco, protetor da gente que vive que nem animal. Santo Francisco que fez Maria lembrar que era gente.
eu ainda me recordo dela
Eu ainda me recordo dela, de seus cabelos dourados, platinados, de seus olhos azuis, circundados por minúsculas pregas que se deixavam ver nos sorrisos e que, a cada choro, se tornavam mais profundas. As pálpebras, no final de sua vida, lhe pesavam sobre os olhos, imprimindo-lhe a tristeza -que era artefato da alma- nas feições, para que estas fossem testemunhas daquela.
Sua alma de criança vivera uma existência aterrorizante, cheia de tormentos e perdas. Sua maturidade viera forçada, forjada, num luto perpétuo, numa constante mágoa pelo mundo fantasioso de menina que não existira. Ela se sentia traída pela vida, que nem a paz lhe concedera e que, no entanto, prometera-lhe, há muitos anos, a felicidade absoluta. Ela nunca se esquecera da promessa. Mas,reconhecia que não se recordava de quando a vida teria celebrado o compromisso. Teria sido nos primeiros anos idílicos da infância, antes que as figuras parentais ruíssem moral e financeiramente, não permitindo que, a posteriori, a morte deixasse alguma memória consoladora? Teria sido com as primeiras dores, que anunciaram uma compensação, ou com as derradeiras, que exigiam indenização? A vida nunca é ré, todavia. Ela nunca paga. Ela é credora. Ao menos, era assim que ela, no fim, refletia.
Sua alma era doce ,todavia, porque suas esperanças haviam sido traídas e massacradas, mas ainda viviam em algum lugar secreto e obscuro de seu ser.
Talvez, a alma de criança conservasse as ilusões mortas em formol, e, por isso, ela não fosse, de todo, amarga. Seu luto era,contudo, angustiante. Ela carregava seus cadáveres vida a fio, sem ter paz, como se andasse, sempre, sobre uma corda bamba. De um lado, a felicidade. Do outro, a morte. Após alegrias fugazes e tristezas duradouras, ela caiu para o lado da morte. Foi queda de causa natural. Não foi pulo voluntário. Durante a queda, ela não desejou uma volta .Ainda assim, a morte era mesmo de causa natural: era natural que morresse quem brigara, irreversivelmente, com a vida. As duas, ela e a vida, nunca se entenderam ou gostaram uma da outra. Minto: no início, a jovem amara a vida. Mas, foi só no início…o amor não correspondido transformou-se em querela que só terminaria mesmo em divórcio,concretizado pelo falecimento
Eu me recordo, ainda hoje, de seus cabelos platinados ao vento e de seus olhos, que quase tudo compreendendo, nada entendiam.
Eu me recordo de seu silêncio , na brisa do porto de Bergen. Eu escuto a ausência de suas palavras diante dos fjordes, e eu ainda sinto o seu olhar, que via sem enxergar, que transpassava aquilo a que se direcionava, pois fixava-se sempre em alguma dor, que eu nunca sabia onde se localizava no espaço. É que a dor se localizava no tempo. E era para o passado que os olhos, sonâmbulos, se voltavam, perto do fim.
escuto uma música
Escuto uma música. A banda é do Leste Europeu. E minha mente devanea e vai até Praga… A Torre do relógio, a Praça, os turistas… Um jovem , magro e pálido, sai do bar. Usara cocaína e ecstasy toda a noite e , agora, vai prosseguir pelas ruas melancólicas como o céu nublado de outono, até seu pequeno, velho e sujo apartamento. Lá, ele vai tomar alguns tranqüilizantes, para amenizar o efeito de tudo que usara durante a madrugada. Vai tentar sedar-se e dormir por algumas horas. O sono é a melhor anestesia, por vezes. Esse rapaz é guitarrista de uma banda que nunca fez, nem fará sucesso. Ela está prestes a se desintegrar. Ele, então, vai arrumar um emprego como garçom, que ele odiará mais do que a tudo, e chegará a confundir o emprego com a própria vida, e desejará, então, morrer. Mas, ele já não deseja morrer? Sim, mas ele ainda não o sabe. Não sei mais do que isso sobre ele…
No Santuário, uma turista reza ao Menino Jesus que seu marido volte…ele a deixara para ficar com uma moça mais nova. Clichê dos tempos atuais? Não importa. É a vida de Helena. Após o divórcio, sua irmã arrastara-lhe para essa viagem pela Europa, a fim de distrair-lhe da dor, mas as dores não admitem distrações; são obstinadas, determinadas a seguirem seu rumo…e Helena chora diante da imagem do Menino, que, hoje, tem seu manto azul. O marido de Helena tem seu livre arbítrio…não sei o que será de Helena, mas o Santo Menino cuidará dela, de uma forma ou de outra. Os amores entre homens e mulheres causam chagas na alma…Ele , como Criador, entende, pois conhece Suas criaturas…
Hans olha a cidade da janela de seu Hotel. O Hotel fede a mofo e cigarro, e o carpete é manchado. Todos seus livros foram recusados pelas editoras. Tudo que ele escrevera fora rotulado como indigno de ser publicado. E ele teme que sua vida tenha sido em vão, pois tudo que ele sabe fazer é escrever. Ele teme que as editoras detenham uma verdade em seu juízo, que contraria o que, agora, ele intitula de devaneio: a suposição de ter talento. São 10 horas da manhã, e ele entorna um gole do uísque que comprara na véspera. E se ele não passar de um pretensioso burguês falido? E se o suposto talento não for nada senão um superficial e megalomaníaco desejo de ser artista? E se ele não for um escritor cuja Arte é incompreendida, mas apenas mais um desempregado no continente europeu? O dinheiro vai acabar e ele vai ter que pensar em alguma ocupação ordinária, que lhe dê o sustento, e vai rotular sua vida de “indigna de ser vivida”, assim como os livros foram ditos “indignos de serem publicados”.AS CARTAS DA EDITORA TRAZEM A SENTENÇA SOBRE SUA VIDA. Não sei mais do que isso… Mas, antes que a música acabe, gostaria de dizer a Hans que continue a escrever sobre tudo que lhe acontecer e também sobre o que não lhe suceder. Hans, escreva sobre a dor, sobre a falência. Escreva sempre, na sarjeta, nos bares, nas horas de folga de seu emprego enfadonho e burocrático…enquanto você escrever, você vai suportar.
A música acabou. Adeus, Praga.
ele
A dor ficou desmemoriada e virou o nada, a apatia. E ele, como autômato,seguiu seus dias, burocraticamente, na repartição pública e na casa burguesa. Por vezes, ele desejava que a dor voltasse a ter memória, por mais que ferisse, para que ele se sentisse humano, novamente.
Um dia, ele adentrou um metrô e viu uma mala vermelha, como a de sua primeira esposa. O formato, a estampa, o tamanho, era tudo igual... A senhora que a portava, todavia, por sobre a echarpe de seda, tinha um pescoço longo e branco, que erigia a face bela e gélida, em cujos olhos residia a reprovação, um tanto arrogante, que recaía sobre o olhar obstinado daquele estranho, naquele sobretudo desgastado. Ele percebeu a sanção da dona da mala, e olhou para a janela. As paredes do metrô passavam escuras e rápidas, sem nada significar, exceto o fato de que estavam os passageiros em movimento. A dor havia recobrado parte da memória, e ele se sentia mais humano. O corpo pesou-lhe. Ao sair do metrô, seus passos foram mais lentos do que o habitual. A lembrança seria uma canga no pescoço, que, no entanto, faria com que ele sentisse existir. Nos minutos que se seguiram, ele sentiu poder optar entre esquecer totalmente e lembrar. Pressentiu, todavia, que a memória lhe tragaria para um abismo muito em breve, pois não teria meias medidas. Não havia meio termo naquela situação. E, então, covarde e sabiamente, optou por esquecer, não abrindo mão da vida biológica. No fundo, ele esperava que, um dia, fosse a alegria que o convidasse, de novo, a ser humano. Ou ,quem sabe, o amor? Mas, a dor, se desprovida de sua estranha amnésia voluntária, lhe mataria. E de que adiantaria ser humano somente para morrer em seguida? Mártires têm que ter uma causa nobre. O seu sofrimento não tinha nenhuma ideologia que justificasse o martírio. Ele, então, subiu as escadas do metrô, e avistou a praça. Os primeiros flocos de neve caíam. Ele compraria um sobretudo novo, numa loja de departamento em promoção.
Ele não tem nome. É só ele, até que volte a ser humano. E vai voltar. Com um novo sobretudo.
Chico e a Mega-sena da virada
Chico já não conseguia pronunciar as palavras com uma dicção inteligível. Normalmente, àquela hora, ele ainda estaria apenas muito embriagado e não terrivelmente embriagado. Os comparsas no bar pensaram que o adiantar do porre fosse pelo ano que já vinha apressado nas horas porvir.
Chico sentou-se, meio tonto, e deveras fedido, na mesa de José, que , em nome dos bons anos de companheirismo no cimento , nos tijolos, nos andaimes e na cachaça, tolerava-lhe o mau cheiro: uma mistura de álcool, com hálito de jejum, suor e chulé. Sim, Chico era notório, no bairro, pelo chulé. É que ele só tinha dois pares de sapatos e , desde que a esposa o deixara, não os lavava nem os arejava. Não usava, tampouco, meias, para não ter o trabalho de lavá-las e não banhava os pés depois das longas jornadas em que construía a casa de outrem. A sua própria, não tinha, não. Ficara com a esposa e seu novo marido. Chico pagava um quarto numa pensão, que cheirava tão mal quanto ele. A dona, todavia, torcia a boca sempre que ele chegava. Bêbados, ela tolerava, mas aquele odor, aquela falta de banho, ela não suportava… Ora, havia um chuveiro na pensão! Por que ele não o usava?Ela já se acostumara com a essência do mofo de seu próprio estabelecimento, mas nunca aceitaria o chulé de Chico.Natural. Sempre toleramos menos os maus odores alheios. Acontece que desde que Rosa, esposa de Chico, trocara-lhe por Wilson, nosso caro Francisco já não gostava tanto de água…virara meio gato, menos gente, meio rato…uma metamorfose lhe sucedera. Se continuasse sem fazer a barba, logo as crianças chamá-lo-iam de lobisomem. Ora, mas o álcool anestesia as narinas e turva os olhos que se contemplam no espelho, tornando a auto-indulgência grande diante de tão triste figura. Triste figura lembra-me Dom Quixote. Sim, não é à toa que me lembrei do herói de Cervantes…nosso herói brasileiro, hoje, quer lutar contra moinhos e vê-os como gigantes. Hoje, sente-se cavaleiro da nobreza; sente-se forte o bastante para ser vencedor.
Disseram-lhe, no terreiro, que ele ganharia a mega-sena e ele creu piamente. Ah, pobre delirante…quixotesco…Não! Não! Não ousem falar assim de Chico, apesar de ter sido eu mesma quem trouxera a comparação com Dom Quixote no parágrafo acima. Deixem-me explicar: nosso Chico é racional. Muito racional: ele calculou, com precisão digna de um professor universitário, que se ele tivera o azar de nascer pobre, de perder a mãe aos 5 anos e o pai, aos 13 , e se ele tivera também o azar de ter levado o calote do último mestre de obras que o contratara, de ser corno, de ter a antipatia dos filhos por não pagar pensão, de não conseguir nova esposa e de não ter dinheiro pra pagar uma puta, era claro que ele poderia ganhar na loto! Sim, porque, matematicamente, a chance de tantos infortúnios se acumularem é igual, se não maior, à de ganhar na mega-sena. E não era qualquer mega-sena. Era a da virada! E como Chico queria uma virada em sua vida…
Quando o belo apresentador começou o sorteio na TV do boteco, Chico arregalou os olhos vermelhos para ver, no meio do nevoeiro de sua embriaguez, um novo destino. Número por número veio e ,lá pelo terceiro, Chico sentiu o coração esmorecer. Esperou até o fim. Não acertara um só numero. Levantou-se sem nada falar e sem, de ninguém, se despedir. Amassou e jogou o comprovante da Loteria na esquina. Decidiu não ir para a pensão. Pouparia as narinas da dona da espelunca, ao menos.Deitou-se no chão, enquanto ouvia rojões. Ainda não era meia-noite, mas há sempre os ansiosos que testam os fogos de artifício antes, criando uma tensão no ar que atinge o clímax na hora da virada. Chico adormeceu. Sono de álcool. Sono daqueles pesados, leves, agitados. Suou, esbravejou, em sonho, contra a vida.Sonhou que lutava contra aquela bola que girava os números no sorteio, como se fosse ela um monstro. E , à meia-noite, quando os rojões estouraram em volume inconciliável com seu sono, virou corpo e rosto para a parede da loja onde se recostara na sarjeta . Essa fora a sua virada. Virada para a esquerda, para não ver os fogos, à direita. Virada de fim de ano. Virada de Chico.
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