A água separou a senhora do cachorro. A imagem correu o mundo.A mulher tentara salvá-lo. Falaram-lhe que não amarrasse a corda de salvamento nele também. Só nela. Ele era supérfluo. As tragédias têm esse poder de transformar o essencial em dispensável e de profanar o sagrado. Um homem fala que perdeu filhos, esposa, nora. Ele está em choque. Sua voz não tem modulação. Eu já o imagino chorando de fronte a um psiquiatra, no Centro de Saúde, daqui a alguns meses. A mulher grita em frente ao IML. Era mesmo o corpo da irmã! E agora? O psiquiatra que imagino vai amaldiçoar a indústria farmacêutica que, numa imensa incompetência, não inventou o remédio para quem perde a vida antes de morrer. Nicho não explorado do capitalismo... Alguém precisa alertar os laboratórios.Seriam rios de dinheiro. Com a força da água que levou o cachorrinho. No Centro de Saúde, haverá alguns tipos de antidepressivo. O psiquiatra, se não for ateu, vai rezar para que um deles funcione. No livro em que ele estudou, há muitas outras opções de medicação, mas o Estado não as compra.Então, é melhor que o paciente melhore com o que há no SUS. O psicólogo vai iniciar a terapia . Mas, e se sua agenda estiver lotada? Ah, nesse Centro de Saúde, não tem psiquiatra? E agora? Por que será? E o salário dos deputados? Como ficou? Que fim deu? Ah, não estou escrevendo coisa com coisa. Estou confusa.Perdão. Escrevo sem nexo. Por vaidade, gabaritei uma questão de prova em que redigi que o plano diretor urbano é obrigatório para cidades com mais de 20.000 habitantes. Tirei dez! Alguém tirou zero quando essa mesma questão caiu na prova da vida. Ah! São ocupações irregulares, ilícitas...mas, por que alguém mora num lugar irregularmente? E as mansões que desabaram? Dá para processar a Prefeitura e reaver os IPTUs? E dá para reaver as vidas? Em que Comarca se entra com esse processo para reaver as vidas?Vidas? Estou confusa. Já me perdi. Supérfluo, essencial, supérfluo, essencial...A ira me confunde a cabeça. Aliás, me falaram que tudo era fruto da ira de Deus. Não. A ira é minha mesmo contra os políticos. Força maior? Motivo de força maior? Quando a força maior se repete na mesma época do ano, no mesmo local, há anos, a única coisa sobre a qual ela é maior é a inércia de quem faz a gestão do município, do estado, do país. Odeio apontar dedos. Mas, hoje, não vejo outra opção.Alguém importante disse que estadistas pensam nas próximas gerações e políticos, nas próximas eleições. E quem governa sem pensar em nenhum dos dois? Não me falaram como se chama. Estou escrevendo sem começo, meio e fim. Ira? Meu Deus, me perdoe pela ira. Quem falou que a ira era Sua, se esqueceu de que Suas mãos são chagadas e Se colocam sobre as frontes dos filhos para trazer consolo. Colocoram cadáveres na Sua casa. Por que tanto susto? O Dono da casa recebe as almas. Uma alma é essencial. Quantas vezes não fui à Sua casa com a alma distante de Vós? A alma que não Vos ama é que profana Vossa casa. Não um corpo, que criastes, mesmo que esteja sem o sopro da vida. Na verdade, a alma que não Vos ama profana a si mesma. Não escrevo com nexo, né? O nexo é supérfluo nas tragédias. Diante do rosto que chora, as ideias minguam. Caetano cantou que o Havaí fosse aqui. Sinto muito pelo menino do Rio. O Haiti é aqui. Sempre foi. E eu finjo que não é assim, e tiro zero na prova da vida.
sábado, 15 de janeiro de 2011
quarta-feira, 12 de janeiro de 2011
domingo, 9 de janeiro de 2011
Qual é a música?
Carlos estava no ponto de ônibus, sobre o banco de cimento, em pé, para que a forte chuva não o atingisse, com suas rajadas laterais provocadas pelo vento . Abrigava-se sob a cobertura de plástico. Pingos gelados salpicavam-lhe o rosto e o corpo mesmo assim. Nas mãos, a pasta azul, também de plástico, continha os recibos das contas pagas e as cobranças daquelas para as quais o saldo da conta fora insuficiente. Agora, a noite caíra e alguns poucos carros passavam fazendo jatos d`água invadirem, com violência, a calçada.
A chuva sobre o plástico que o protegia fazia um barulho irritante e constante. Ainda assim, uma música repetia-se na mente de Carlos e seu pensamento se contorcia para descobrir que melodia era aquela. Seria de uma novela antiga? Seria de algum filme dos tempos de garoto? Sim! Era de um filme! Mas, qual? Sua cabeça calva estava gelada e molhada. Ele verificou se a água não entrava na pasta. Não. Os papéis estavam a salvo. Por que o ônibus demorava tanto? Ainda choveria quando ele tivesse que pegar o segundo, rumo à sua casa. Rita estaria adormecida. Se não estivesse, reclamaria das contas não pagas, da falta de saldo, da falta de emprego, da falta de reboco onde pingava goteira, da falta de amor, da falta de virilidade, da falta, da imensa falta. Carlos fizera um ano de francês na adolescência. A música era francesa? Não, não era. E inundava-lhe de melancolia. Anunciava-lhe uma perda terrível, irreparável, uma falta, dessas gigantescas, que a tudo ocupam e de tudo se apossam. Falta espaçosa aquela. Como seria bom ter um carro! Rita sempre falava isso num tom que o humilhava por não possuir um. Era tão bom ir ao cinema com ela quando eram jovens. O frenesi do toque da mão juvenil! A mão gelada apalpou a pasta molhada mais uma vez. Os papéis estavam salvos. Bardot, Cardinale, Delon, Audrey Hepburn. Era a música de Bonequinha de Luxo? Não, não era. Julie Christie. Era o Tema de Lara? Não, também não. Girassóis da Rússia?Mas que droga! Não! O pensamento teimava em não achar o nome da melodia, o que era preocupante porque melancolia não nomeada é como fera bestial sem dono que a adestre. Muito perigoso. Ainda mais naquela chuva. Um carro passou em velocidade mais alta do que a dos demais e o fim do jato d`água resvalou no peito de Carlos. Ele se lembrou! Era a música do “Verão de 42”! Vira o filme numa tarde chuvosa depois de um exame final do muito promissor curso de datilografia. O ônibus chegou. Pareceu, um dia, que a vida seria filme, com moça bonita apaixonada, com trilha sonora. A vida não foi filme. A vida não imitou filme, nem dos tristes. Até a tristeza da vida era sem graça, sem música melancólica orquestrada. Era só tristeza vira-lata, apressada, que assalta a gente entre o almoço corrido e o ponto de ônibus. Tristeza sem música era mais triste. Ninguém lhe avisara. Amor fora do Cinema desbotava. Ninguém lhe prevenira. Carlos tropeçou e espatifou-se na calçada. A pasta arremessada atingiu a poça d`água. Ele ergueu a cabeça e viu que os papéis haviam sido molhados. Os recibos e contas estariam encharcados e,por horas a fio, isso fingiria ser a maior tragédia da vida de Carlos e Rita. E a melancolia até seria amenizada. Bendita poça d`água deste verão de 2011! A melodia partiria e, com ela, a saudade do que, certa vez, se sonhara.
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