A cortina , leve e transparente, esvoaçava, enquanto Anne amarrava a camisola branca e de cetim à cintura. Blanca correu para soltar-lhe o coque e escovar-lhe os cabelos, a fim de assegurar-lhe que o ritual noturno de anos não se atrasasse, naquela noite, por um sacrílego descuido de governanta. Anne percebeu que Blanca estivera distraída e que quase se esquecera dos cabelos platinados aos quais devia cuidados e honrarias.
Como sempre, Anne sentou-se em frente à penteadeira e contemplou o escovar servil da mulher que lhe seguira pela vida, tal qual sombra. Os olhos azuis ,diminutos pelas pálpebras enrugadas, olharam-se, procurando algo. Acharam apenas um excesso de rouge nas bochechas. Anne repreendeu a si mesma, em pensamento; afinal, uma dama não pode usar tanto rouge!
----Blanca, eu já lhe falei de quando os reis me receberam para um chá? Sim, cara Blanca, eles exigiram minha presença no chá da tarde do mês de setembro daquele ano em que papai produziu mais tecidos do que todo o Reino Unido. Lembro-me da deferência com que me receberam!
O vento mais forte fez a janela ressonar, e Anne interrompeu sua narrativa. Havia um furo na cortina.
------Blanca, onde já se viu? Um furo na cortina de mamãe! Que horror! E se o duque e a duquesa resolverem passar o final de semana aqui? Ora, Blanca, como vou pedir à Rainha um marido para você, se é tão relapsa? Que homem decente vai querer mulher assim?
A governanta, de forma apática, com o sotaque estrangeiro habitual, pediu-lhe perdão e prometeu novas cortinas.
-------Bem, onde estava eu? Ah sim...a porcelana da rainha...magnífica,mas igual à de mamãe...em nada, ficamos aquém deles. Preciso de um vestido primaveril caso me convidem para o jantar da Princesa.
Blanca suspirou cansada. Anne, com astúcia que lhe era de praxe, percebeu que sua interlocutora estava enfastiada e não tardou em repreendê-la.
-----Ora, ora, como vou arrumar um conde para você, se é assim tão sem modos?
Mais uma vez, Blanca se desculpou sem convicção, e olhou a rachadura no espelho da penteadeira. Ergueu Anne e escorou-a até a cama, passando por sobre a antiga mancha de café do carpete. Irritou-se com o cheiro de mofo e até espirrou. Anne não demorou em repreender-lhe o espirro.
------Ora, Blanca, como apresentar ao rei governanta tão doente? Você sabe que, em breve, ganharei o título de lady, não?
Anne deitou-se vagarosamente na grande e antiga cama e, ao fazê-lo, o tumor de seu abdome despontou saliente. Blanca desviou o olhar, temerosa. Tinha medo daquela massa volumosa que era como presságio da morte.
-------Ah, o espelho está rachado, Blanca? Que vergonha! Faça algo amanhã mesmo. Chame Charles para fazer nova penteadeira, com mármore rosa desta vez. Quanto descuido! Já lhe contei sobre o broche que a Rainha me deu? Que jóia magnífica! É claro que, em nada, as de mamãe ficam aquém. Pois bem. Imagine se a Rainha tem penteadeira quebrada!
Uma rajada de vento mais frio adentrou o quarto, e Blanca correu para fechar as janelas. Olhou para o jardim e desejou fugir. Há muito, estava presa à Anne por lealdade e desejo de sobrevivência. Temia passar fome longe dali. E, acima de tudo, tinha medo de que a consciência a acusasse de traição caso fugisse. Um rato fez barulho e interrompeu os devaneios da governanta. Anne olhava fixamente para o teto e, estranhamente, não se queixava, em azedume, do bolor deste. Sua mente estava distante daquele mofo, passeando pelo Palácio real, décadas antes, quando seu pai ainda não havia ido à falência e ela tinha muitos pretendentes na Câmara dos Lords.
Blanca invejou Anne, mesmo vendo-a circundada por decadência e doença. Invejou sua cegueira. Invejou sua capacidade de validar uma existência falida e estéril com uma ridícula e longínqua tarde no Palácio, da qual nenhum membro da Família real jamais se recordaria. Teve vontade de gritar-lhe que ela era só uma velha decadente e pobre, que sobrevivia às custas da generosa pena de alguns clientes antigos de seu pai. Teve vontade de gritar que era ela, inglesa de berço, que jamais conseguira marido algum, e não a espanhola serviçal. Calou-se, porém. O vento movia alguns galhos no jardim, que ficavam sinistros na escuridão. Em breve, Blanca se recolheria ao seu quarto, onde a solidão e o silêncio lhe trariam alguma paz. Ela voltaria a existir, e deixaria, por algum tempo, até que o novo dia despontasse, de ser o apêndice da existência de Anne.
------Blanca, já lhe falei do dia em que os reis me receberam?
A governanta respirou fundo e, do interior de seus olhos negros, pequenas partículas de complacência emanaram para os olhos azuis e cansados que a perscrutavam. Eram partículas quase palpáveis e visíveis. Disse a voz catalã, em sincera doçura:
-------Sim, já me contou. Tente repousar agora. Já é tarde.
O tumor elevava-se por sob a camisola e Blanca sabia que não era só o mísero dinheiro daquele lugar que a mantinha ali, com as refeições garantidas. Havia algo no azul daqueles olhos que lhe fazia desejar que os reis, um dia, convidassem Anne novamente para o Palácio. Mas, é claro, que ela sabia ser isso impossível. E, sabendo- o, decidiu que, pela manhã, faria um remendo na cortina. O furo desta era mesmo feio e desagradava a ela também. Cortinas eram importantes para que não se visse e não se fosse visto sem aquiescência. Mas como ela justificaria um remendo à Anne? Bem, ela pensaria em algo. Diria que remendos são úteis. “Sim, remendos são úteis. Sim, cortinas são importantes. Mesmo que quase transparentes”---repetiria Blanca, no seu privado aposento,a si mesma, até que adormecesse.