domingo, 27 de março de 2011

Carta à Tatiana

Cara Tatiana,
Saudações da prima que muito lhe quer bem!
Minha cara, veja só em que engraçada confusão me meti: caminhava conforme me disseram papai e mamãe. Em linha reta. Estrada boa. O tempo também estava agradável. Era perto do lago onde nadamos naquele Natal. Lembra-se? Bem, já não importa. De repente, tropecei e ouvi novas instruções acerca da trajetória a tomar, vindas de vozes estranhas.Vozes de desconhecidos, pretensos conhecidos. Optei pela direita numa bifurcação, conforme me fora ordenado. Foi na altura daquela árvore frondosa, perto da fazenda do tio Mário. Recorda-se? Ah, já não tem importância. Os aplausos foram tantos pela opção feita! Seduzida, optei pela direita na próxima bifurcação também, esperando nova ovação. No entanto, só vaias obtive. Olhei, envergonhada, e ninguém vi. Era só minha a caminhada. Mas, os outros, ainda assim, de algum lugar, importunavam-me. Optei, então, pela esquerda  na outra encruzilhada. Aplausos, ansiosa, esperei. Silêncio. Estava só. E só caminhei por longo período até ouvir novas vaias. "Mas, agora, pelo quê?"-pensei. Não havia desviado a trajetória, nem em um só milímetro, nos últimos três quilômetros! Ah! Quando percebi, já não sabia para onde ia. Estou numa cidade que se chama Vassfghborgstrassmanhig.  Não consigo pronunciar o nome desse vilarejo. Devo ter a língua presa. Não é possível. Nome simples como esse.Bem, não conheço ninguém aqui. Estranhamente, não soube dizer meu nome na pousada onde queria fazer check in para pernoitar. Já é tarde. Veja só que tolice a minha! Esqueci-me do meu nome....ah, sua prima é uma tola...estou a gargalhar. Que piada! Vamos todos rir desse incidente bobo no próximo Natal, sem dúvida. Pensei em ir visitá-la  mas , daqui, não sai trem para sua cidade. Esqueci-me da capital de nosso país. Poderia pegar um trem até lá para a conexão, né? Ah, sua prima é uma tolinha mesmo. Aprontando nesse agradável e pitoresco vilarejo... A temperatura lá fora deve ser de menos vinte graus. Tudo bem.Estou com o casaco da tia Ana. Aquele vermelho, de lã. Lembra-se? Ah, não importa.  Você se importaria de me escrever dizendo meu nome? Ah, ajudaria dizer a capital de nosso país.Ajudaria , quem sabe, dizer o nome de sua cidade. Bem, acho que já que vai ter o trabalho de me escrever, poderia dizer, na carta, também como se chama o país em que estou. É só curiosidade.Ah, o nosso país! Como era o nome mesmo? Nada disso é urgente.Não tenha pressa, por favor. O importante é que ouvi dois aplausos enquanto procurava o Correio mais próximo. É sinal de que estou bem. Minha meta é voltar a ser ovacionada pelas multidões anônimas. Veja, eu nunca sei de onde vêm os aplausos ou vaias. Curioso, não? Estou a gargalhar sozinha de novo. Muito cômico..Ah, se não for muito incômodo, você poderia me parabenizar por algo na carta? Digo, só se não for incômodo...
De sua prima,
Ai não me recordo o nome. Perdão, Tatiana.

A Mulher de Ló

   Antônio estava atordoado,  e dizia, em meio ao pranto, ter visto a mulher de Ló. Sua esposa achava que era a pinga que o fazia falar tolices e começou a passar um café forte. Antônio jurava que era a mulher de Ló que ele vira, apesar da descrença sarcástica de sua interlocutora: "Não, Dulce, ela não virou pedra. Não é piada. Ela já era pedra". Ele fez uma pausa para aparar uma das muitas lágrimas que lhe escorriam pela face. Com os cabelos desalinhados e roupa suja, prosseguiu: "Ela era bonita. Loira. Com os olhos pintados. Mas nunca, na vida, vi olhar duro como aquele. Eu lhe pedia desculpas por estar chorando e por estar com aquelas roupas na hora do serviço.Ela não tinha como saber o porquê". Antônio se calou ao lembrar o gelo que sentiu diante daqueles olhos e do silêncio da boca pintada de batom. Dulce olhou para ele, e replicou: "E você, homem, chorou no serviço? Não podia se conter?" Ele disse que não. A esposa, em tom pragmático, perguntou se caberia uma ação trabalhista contra a tal mulher de Ló. Antônio deixou o tom melancólico e, um pouco aborrecido, disse: "Claro que não. Não há lei que obrigue alguém a não ser pedra. Além disso, sou eu que agonizo em Sodoma, não é?" Dulce irritou-se: "Pare com história de Ló e Sodoma, homem. Ficaste louco? Conte, enfim, por que chorava." Antônio respirou fundo e, preparando-se para nova leva de lágrimas, disse:   "Porque mandaram-me embora". Dulce paralisou. Antônio temeu que ela fosse se petrificar também. Outro olhar como aquele, ele não suportaria no mesmo dia. Mas, felizmente, Dulce chorou, e Antônio respirou aliviado. Sua mulher era de carne e osso, e até tivera a delicadeza de desviar os olhos dos de seu marido...Ao final da noite, ninguém conseguia conciliar o sono naquela casa, e a tristeza reinava. Antônio,todavia, no seu íntimo, alegrava-se por, nunca mais, ter que ver os olhos da mulher de Ló. Preferia ser ele um Jó na vida a cruzar com aquele ser de pedra, num elevador,outra vez.

À humanidade

     Em algum lugar do mundo, neste momento, há uma enfermeira que se esqueceu do valor do que faz porque não lhe pagam bem. Há também um porteiro que não entendeu que vale tanto quanto aqueles que, no prédio que ele vigia, moram; há  ainda um cobrador de ônibus- e eu quase o vejo com clareza- que não reconhece que é tão importante quanto aquele rosto da primeira página daquela revista de ricos e famosos. Há uma mulher grávida que não compreende a magnitude da graça que lhe é dada pois lhe disseram que era uma desgraça gestar vida em meio à pobreza. Há uma professora que se sente menos útil do que o acionista de Wall Street. Há um médico que inveja os legisladores que aumentam o próprio salário e se olvidou do caráter sagrado da profissão que abraçou. Em algum lugar, uma criança não sabe ainda o que é amor. Quando descobrir, já será tarde demais. Noutro lugar, um pai se esqueceu da importância de sua missão. Em qualquer lugar, alguém chora porque o mundo virou de ponta cabeça , enquanto todos tentam fingir que ainda estão em pé. Só pode se levantar quem sabe ter caído.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Os porcos e as pérolas

         Alice contemplava, assustada, o porco com o colar de pérolas de sua tataravó no pescoço. O animal chafurdava-se na lama, alheio a tudo e a todos, mas com a elegante jóia ostentada . É bem verdade que as pérolas estavam escurecidas pelo lamaçal que lhes respingava mas, ainda assim, eram pérolas preciosas, herança de família. Alice temeu que o colar se rompesse num dos movimentos mal calculados do porco. Ele era, todavia, pesado demais e movia-se, por essa razão, vagarosamente, sem rompantes. É possível que o colar não se desfizesse, portanto. Alice percebeu, então, que estava coberta de lama, e que o porco crescia cada vez mais. Olhou para baixo e viu pés rosados. Ou melhor, patas. Eram quatro. E eram suas. E ela nem sequer tinha o colar de pérolas que lhe era de direito! Passado algum tempo, outros porcos chegaram e a lama, aos poucos, transformou-se num lago de pérolas manchadas pela chafurda, onde chafurdaram-se todos alegremente.