quarta-feira, 13 de julho de 2011

Lugar-Comum

-----Sra. Rinaud, eu insisto: pare de escrever sobre o lugar comum. Ninguém o aguenta mais. Todos já escreveram tudo sobre ele. É medíocre!
-----Sr. Richard, por favor, você é só o homem dos números, dos negócios. Eu sou a artista.
-----Ah! O ego ! Esqueci-me de seu ego! Ele já não cabe nessa sala, viu?
-----Eu a mandei reformar para caber. Não se  preocupe. Vou ampliá-la. Richard, corte o papo furado e mande entrar o Lugar-Comum
-----Está bem, madame...


------Olhe só que absurdo, madame. Ele usa camiseta branca, jeans e tênis.
------Sim. E eu o vejo todos os dias. Ele me traz as notícias mais importantes de minha vida. Anuncia minhas dores e alegrias. Não é sem motivo que falam tanto dele. Ele é versátil. Está em qualquer canto. Não é estranho a ninguém neste mundo. Quando choro ou rio, ele sempre está ali. Existir é usual. A roupa dele é mesmo casual.
-------Mon Dieu! Como explicar-lhe? As pessoas querem ler sobre o inusitado. Querem surpresas!
-------Ora, que procurem um mágico!  A vida é uma repetição neurótica!
-------Permita-me apresentar o Não-Lugar-Comum, por favor, madame.
-------Que nome comprido! Já me desagradou!


-------Prazer, Não-Lugar-Comum. Bela camisa. Brilha um pouco demais...Richard, por favor, traga-me óculos escuros. Suas calças são farrapos? Sim...sim...te escuto...é para contrastar com o glamour do brilho. E esse chapéu? Ah? O quê? Não tem explicação? Por quê? Porque o não lugar comum não pode explicar tudo...faz sentido. Achei a ideia do contraste entre brilho e pobreza lugar comum, na verdade. Não! Não se ofenda, por favor. Você é um ser original, Não-Lugar-Comum.


 --------Richard, não confiei nesse Não-Lugar-Comum. Sabe aquela dor vadia? Ele não a conheceu e nem adianta apresentar. Ele se recusa a vê-la.  Qual dor? Ora, Richard, aquela que vem no ônibus das cinco, no caminho para casa. A dor arroz com feijão.
.
--------A dor vadia não vende livro, madame.
--------Mas é ela que dói, Richard. Olhe: eu já fui surrealista mais de uma vez. Foi interessante. Mas não o posso ser sempre. Mande entrar Napoleão, César, Louis XVI  e XIV, Freud e Marx. Foi excêntrico falar com eles. Mas, no final do dia, a dor é mesmo tola, inculta. A dor não estudou Sociologia. A dor não é politicamente correta. A dor não é poética. A dor só dói. E se dói, preciso escrever. Richard, eu até escrevi para Tatiana do fim do mundo. Era um lugar comum disfarçado. Sim. Eu pedi que ele usasse uma echarpe de purpurina sobre a camiseta branca para sair da monotonia. Ficou bom. E ele não reclamou. O lugar comum é bem solícito. Por isso, todos dele falam, aliás.
  ---------Mas seu lugar comum é chato.
---------Discordo. Ele fala francês e tem olhos azuis. Eu gosto muito dele. A camiseta branca pode ser uma metáfora. O jeans, também. Não é possível que eu precise de excentricidade para falar de simbolismos. Se os escancaro em algo surreal sempre,já não há metáfora. Além do mais, você não sabe quão difícil é convencer Napoleão a tomar um chá da tarde. Ah, houve também a menina com os porcos e as pérolas. Gastei uma fortuna para conseguir as pérolas. E os porcos não eram domesticados. E ainda me sujei de lama...credo! Não aguento essa vida todo dia. Já fui a mercado de desejos; já fui a loja de amor...preciso do Lugar-Comum para repousar. Ele me sorri com o cotidiano e não me cobra nada. Ele me dá segurança. Acho até que vou pedi-lo em casamento!
  .
 --------Madame, você é um caso perdido. Vai acabar escrevendo folhetins.
-------Richard, o único medo meu é escrever algo que não seja real. Sou tão fiel à verdade quanto uma jornalista. Com uma única diferença: a verdade é a minha. Não a do mundo.
-------Ah! Então, não é lugar comum...
-------Lugar-Comum, dê-me um beijo e mande Richard embora. Ele já me cansou.
-------Madame, seu ego está espremendo a poltrona de couro de 10.000 dólares.
------- Mande-a tirar. Meu ego precisa de espaço. E se ele se perder, ache-o, Richard! Da última vez, fiquei sem ele por dez dias, depois daquela crítica horrível sobre o meu livro.
--------Culpa do Lugar-Comum. Aliás, seu ego e eu brigamos. Não queria te contar para não te aborrecer.
--------Richard, meu ego é frágil. Faça as pazes já. Eu vou tentar convencê-lo a te perdoar, mas você sabe que ele tem mau gênio...Eu mesma o amo e o odeio, mas me disseram que é fatal despedi-lo. Então, é melhor aceitar os encargos trabalhistas dele. Temos que o aceitar. Agora,deixe-me a sós com o Lugar-Comum. Vamos ouvir uma música piegas com vinho. Somente ele me entende. Ah...arrume umas calças jeans para o Não-Lugar-Comum. Ninguém é obrigado a ver suas nádegas em meio aos trapos para provar-se que há contraste entre o lixo e o luxo. Ai, que lugar comum, aliás! Ah, mais uma coisa: convide a Gramática e a Ortografia para um jantar. Vou tentar reconciliar-me com elas depois daqueles incidentes. Pode deixar, Richard...o ego me alertou sobre minhas faltas.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Salvatore Adamo - F Comme Femme ( traduzido )

F comme femme

      Na mesa do café do Jardim da Tulherias, um passarinho ousava petiscar as migalhas de quem lá se fartara antes dela.Quem ela era? Ela era uma femme. Ainda não fizera seu pedido ao garçom. O tempo esfriara em toda a França, e ela enrolara o cachecol junto ao pescoço, com graça. Ao fundo, a música de dentro do bistrô falava de "f comme femme."
       As folhas eram de outono, amarelas como seu sorriso ao garçom. Este limpara a mesa e expulsara o passarinho glutão, enquanto ouvia o pedido da mulher. Frágil e rapidamente, a pequena ave voou para o abrigo de alguma árvore. E a mulher  queria convidá-la a retornar e compartilhar as migalhas daquela refeição, mas não teve coragem. Ela deveria ter escolhido uma mesa dentro do recinto, pois não era primavera em Paris e as folhas são mortas-já dizia a outra canção. As flores? Ah! As flores vivem por pouco tempo. São frágeis. "Force" não pode ser o oposto de "fragilité", se ambas são tão conhecidas de seu ser. Mas há uma força que só a fragilidade pode conhecer. É a força de não sucumbir.
       Amar era prazer e martírio. O "f" de "femme" é de "fatalité". A anatomia não desmentiria a alma. Há um vazio que só uma mulher pode conhecer. Do vazio, uma esperança nasce. E, com ela, vive uma imensa melancolia. A esperança, um dia, se cansa e a melancolia grita "fatalidade", onde havia só a verdade. "F" de falso. A refeição estava gelada. O passarinho não voltara. O garçom errara o troco e não pedira desculpas. Ele lhe diria que sua dor de femme é encenação, e que flores são clichês. Ser mulher é o maior dos clichês.
      Um dia, bem velhinha, ao deixar este mundo, ela diria a Deus que a dor maior de todas fora a de ser mulher. Desperdício "d`être femme".Como o das flores belas e piegas que murcham e morrem numa semana. Um grande desperdício não ser colhida. Um grande desperdício ser colhida e sucumbir. Um grande desperdício não ser a "femme".

domingo, 3 de julho de 2011

Atestado

   Lindolfo guardava, ainda, a pasta de documentos que levara para o dia da admissão na repartição da subdivisão do Departamento da seção...enfim, aquele emprego estável, sonhado e cobiçado por todos na sua cidade de quinhentos habitantes. Na pasta, o papel amarelado atestava que Lindolfo havia nascido. Embaixo dele, o  atestado de ter concluído o Ensino Médio se mostrava um pouco rasgado, o que causara desgosto em Lindolfo. O atestado de que se casara estava intacto, todavia. O papel que atestava seu divórcio estava um pouco manchado. Ah! Sim! O atestado de cidadão do ano, daquele ano bom, antes que sua mulher se fosse! Que lindo papel! Com o brasão do Município!
   Lindolfo, que nunca bebera até os 42 anos, entornou um copo de pinga. Lembrou-se do atestado de doença que levara ao emprego naquele dia. O primeiro em vinte anos de bom serviço! Depois, foi o papel que atestou que ele havia sido demitido, que ele carregou para casa. Havia ainda o papel que atestava que a biópsia era mesmo de câncer.Atestado pesado aquele. Encurvara-lhe as costas de tanto peso.
   Lindolfo, em seus devaneios, pensou que deveria ter pedido à esposa um atestado de que ela o amava no dia em que se casaram.Ele poderia ter usado isso contra ela e tê-la obrigado a ficar. Mas qual cartório ,no mundo, emitiria isso? Deveria, quem sabe, ter requisitado atestado de que era "cabra macho" para aquele doutor que examinou aquela verruga estranha que lhe constrangera. O papel que dizia que ele fora o cidadão do ano de Miserópolis não atestava que ele havia existido. Será que alguém poderia dar-lhe um atestado de existência? Mas quem faria tal disparate--pensava Lindolfo-- enquanto roía as unhas. Mais um gole de pinga, e Lindolfo pensou que , por segurança burocrática de um bom ex-funcionário, convinha já pedir o atestado de óbito para arquivar naquela pastinha.Ele não poderia confiar o arquivamento de papel tão importante a outrem que não ele. A organização era essencial até para morrer. Mas qual médico atestaria morte num vivo?
     A campainha tocou. Eram Carlos e a esposa, vizinhos de Lindolfo. Carregavam um bolo de chocolate e um sorriso burguês. Deram parabéns a Lindolfo. Ele quase correu à pastinha para se certificar de sua data de nascimento. Conteve-se, todavia, e tentou ser simpático. O açúcar do bolo  trouxera um pouco de lucidez à mente embriagada. O atestado de existência era comestível, tinha uma vela que se derreteria, e acabaria em pouco tempo. A memória era cruel e  não registraria o atestado em seu banco de dados. Mas, por alguns instantes, Lindolfo achou que a burocracia da vida sorria-lhe mais uma vez e  até procurou uma máquina fotográfica, mas não a encontrou.
   

quarta-feira, 29 de junho de 2011

A PAZ

   Se a paz pudesse ter um endereço fora do coração humano, seria num Parque esquecido de Lisieux.
   Se a paz pudesse ser apreendida, aprisonada no tempo, eu aprisionaria aqueles instantes de solidão no banco daquele Parque, tornando-os eternos.
    Existem momentos, muito breves, em que o Céu toca a terra, em que Deus toca nossa pequenez. Para mim, ao menos, são breves. Para outros, não o são.

Refletindo com Santa Terezinha

"O Bom Deus me fez compreender que existem almas que sua misericórdia não se cansa de esperar..."

"O Pai quer que o ame, porque Ele me perdoou não muito, mas tudo".

"Não consigo crescer, devo suportar-me como sou, com todas as minhas imperfeições".

"Deus é mais terno que uma mãe".

Santa Terezinha do Menino Jesus


St Theresa of Lisieux (pic: AP)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Pour réfléchir

"Le sage doit rechercher le point de départ de tout désordre. Où?
 Tout commence par le manque d`amour."
 Mo-tzu
philosophe chinois

domingo, 26 de junho de 2011

Ida às compras

           Não sei o que me possuiu para que eu acompanhasse Helene naquele sinistro passeio. Ela me havia dito que queria ir às compras. Ingênua, não perguntei do quê. É isso mesmo , leitor: sempre pergunte compras do quê, porque você nem pode imaginar o que andam a vender por aí nestes dias. Bem, Helene me levou, com ar jovial e inocente, a uma sinistra loja úmida, escura e pequena, ao lado do cemitério. Eu já devia ter dito "não" lá mesmo, mas a curiosidade se fez passar por cordialidade e eu acompanhei minha amiga ao estabelecimento, que não tinha placa ou nome. Havia um balcão de mogno, atrás do qual prateleiras vazias ocupavam a parede até o teto. O comerciante, um senhor calvo, de olhos claros e ansiosos, esboçava um sorriso sádico que me arrepiou. Quase sugeri que ele trocasse de profissão e se tornasse coveiro, já que o cemitério estava tão próximo. Tive medo de que ele respondesse que aquele era mesmo seu segundo emprego de meio-período. Não que eu tema coveiros. Simpatizo com eles. Temeria sim aquele homem como coveiro, pois ele parecia capaz de enterrar os vivos. Para Helene, tudo era muito natural, no entanto. Ela logo cumprimentou, com muito respeito, o senhor, e indagou com naturalidade: ---"então, hoje chegou?" Aqueles olhos azuis cintilaram de alegria mórbida diante da decepção de minha amiga, depois que os lábios finos e arroxeados pronunciaram um afetado "não" como resposta à indagação. Helene transfigurou-se: irritada e amargurada, exclamou que não era possível aquela situação e que ela reclamaria a algum órgão superior. O homem, muito calmo, como se nada temesse, prosseguiu: ---"senhora, as prateleiras estão todas vazias, não é? Não tenho culpa se os amores não chegam aqui. Ninguém parece querer vendê-los por preço razoável. Reservei duas prateleiras para os amores não correspondidos, isto é, aqueles que são da ciência do ser amado, mas sem correspondência. Reservei quatro prateleiras para os amores não declarados e o resto da loja para os amores findos. Nada. Não consegui nada. Ninguém se desfaz deles. Ninguém os confia a mim". Eu pedi a Helene, um pouco gaga, que fôssemos embora. O homem sorriu-me, maliciosamente, e ofereceu-me água. Eu disse que não era necessário. Helene, no entanto, não concordava em desistir da aquisição: "---eu preciso de amor, seja ele de segunda mão, usado, de outra pessoa". Tentei argumentar racionalmente:"Helene, não é bem assim que funciona. Ou o amor é para você ou nunca será seu". O dono da loja irritou-se com minha argumentação. Perdeu o ar de superioridade irônico e gritou:--"sua moleca, não entende nada! Estou há anos neste ramo". Respondi à altura: "pois bem. Não aprendeste nada nesses anos todos, pois não tem um só item para vender. Por que não fecha essa droga de loja? E quanto a você, Helene, prefiro te esperar no cemitério a ficar aqui com esse charlatão". Os olhos azuis ficaram vermelhos de cólera, e eu me virei rapidamente,antes que apanhasse, saindo daquele inferno. Até que o cemitério não era tão desagradável se comparado à sinistra loja. Um pouco de paz, ao menos.
                Passado algum tempo, avistei Helene caminhando desolada, com um papel na mão. Era um endereço. Perguntei de onde, e ela repondeu, tristonha, que era do mercado de desejos. Eu propus que ela procurasse um Hospital para uma avaliação neurológica. Ela sorriu com a fraqueza de quem está absorta na própria tristeza e como se tivesse ouvido uma tolice de criança.
                 Foi a maldita curiosidade, travestida de sincera amizade, que me fez ir ao inusitado mercado. Helene transfigurou-se lá chegando. Animou-se muito com as barracas e o barulho febril da multidão que andava nos corredores. No corredor central, um relógio tinha um ponteiro que corria como o vento, de tal forma que uma hora se passava em menos de um segundo. O mal estar voltou a se apoderar de mim. Pedi a Helene que fôssemos embora. Tarde demais. Ela já estava entretida com a vendedora que lhe vendia o desejo de ser rica. Helene me dizia, em frenesi: " imagine só, minha amiga, se eu desejar ser rica, ocuparei-me de tudo quanto me traga dinheiro e ,tendo-o, viajarei, comprarei jóias, roupas, carros...tudo quanto quiser. Talvez até volte no senhor dos olhos azuis e compre sua loja". Não consegui ficar quieta: "Helene, você compraria uma loja vazia? Escute, Helene, esse desejo vai te cansar muito e frustrar. Ele nunca será saciado".
               Helene não pareceu convencida. Mas antes que me respondesse, um homem jovem e falante se aproximou de nós oferecendo o desejo de poder. Helene, mais uma vez, entusiasmou-se. O vendedor omitiu, com astúcia, que tal desejo traria o risco de Helene corromper sua moral. Eu tentei alertá-la, mas fui interrompida por uma senhora gorda, com uma verruga terrivelmente grande, no nariz, que oferecia o desejo de amar e ser amada. Eu tentei explicar a Helene que esse desejo ela já tinha. Em vão. Helene queria, a qualquer custo, comprar um desejo. Não suportando o absurdo, rendi-me a ele: "Escute, Helene, vou processar todos dessa droga de mercado. Isso aqui é venda casada. É vedado. Eles te vendem um desejo e empurram uma ilusão. Como assim qual ilusão? Você não percebeu? Se não percebeu, não tem jeito.Está cega. Isso é um mercado de ilusões." Helene, irada, disse que eu voltasse ao cemitério, pois combinava mais comigo. Aos berros, respondi que o cemitério era honesto, mas que eu não tinha intenção de retornar para lá. Cansada, desisti de Helene e saí do mercado infernal. Na rua, as pessoas andavam como se ignorassem a estapafúrdia encenação que ocorria a alguns metros delas. O relógio da Catedral tinha os ponteiros normais. Uma hora era uma hora, finalmente. Sentei-me na calçada. Ouvi os sinos. Helene saiu abatida e calada do mercado e sentou-se ao meu lado. Disse, em tom de desabafo, sem olhar nos meus olhos: "ofereceram-me o desejo de comer apenas quitutes deliciosos a todo o tempo; ofereceram também o desejo de beber vinho a todo instante. Perguntei se o médico viria como acessório no caso dessa compra. Eles me falaram que não.Ofereceram-me o desejo de ser a mais bela mulher, mas eu teria que comprar o de ser muito rica junto" Comecei a roer as unhas. Não sabia mais o que falar. Na esquina, um homem muito magro e pálido segurava uma caixa de isopor de sorvetes. Ele nos olhava sem nada falar. Acho que nos olhava sem ver. Helene perguntou-me se poderia pegar um desejo emprestado de mim. Qualquer um. Ela prometeu devolver-me. Perguntou se eu tinha o desejo de uma vida acadêmica de sucesso ou ,quem sabe, de fama. Aceitaria qualquer um. Sorri-lhe, já sem forças de lutar contra aquilo que a movia. Falei simplesmente: "Quando criança, você gostava de sorvete de pistache. Vamos ver se tem na esquina?" Helene riu, com condescendência, como se eu tivesse falado uma asneira simpática, mas seguiu-me até o sorveteiro. Terminamos o dia  tomando sorvete na praça em frente à Catedral. E a expressão"ir às compras" nunca mais me foi a mesma.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Midnight in Paris---reflexões

          Em "Midnight in Paris", Woody Allen parece sustentar a tese de que não existe a "idade de ouro", pois cada ser humano idealizaria, fantasiosamente,  as décadas que lhe precederam, julgando terem sido elas melhores do que o presente. No entanto, o final feliz e ingênuo do filme surpreendeu-me: é como se ele contrariasse o restante da trama. Afinal, se não existe a "golden age", como pode haver uma "cidade de ouro", mítica, pela qual tudo se larga e em que se cruza com uma mulher, igualmente idealizada, numa ponte?
          No filme, destrói-se o mito do culto ao passado, mas não do culto a Paris ou do amor romântico.
          Ça va...não discordo de Woody Allen (aliás, essa última frase soa megalomaníaca). A verdade é que, talvez, não possamos viver sem mitos. Ou que tenhamos que nos desfazer deles muito lentamente, em doses homeopáticas, conforme a vida nos dê algo que os susbstitua: sejam novos mitos ou realidade. Ainda assim, quem saberia dizer onde termina um mito e começa uma realidade, se quem define o real são os próprios olhos que mitificam o mundo?

sexta-feira, 10 de junho de 2011

MEDO

     Eu tenho medo da "força da grana que ergue e destrói coisas belas" (C. Veloso). Não só coisas; pessoas, também. Eu tenho medo de pensar que essa grana é o maestro da sinfonia a que chamamos de vida, e segundo a qual, dançamos constantemente, sem pensar em quem ou no quê conduz a orquestração. Tenho medo, muito medo.
       Quando eu fecho os olhos, vejo uma enxurrada muito forte de lodo, que arrasta a tudo e todos. Alguns tentam se segurar aqui e acolá. Não sei nem por quanto tempo conseguirão. Outros caminham desatentos à força destruidora que lhes surpreende e leva embora. A lama também é feita de água. E a água é vital. Desde que limpa...
        Ah! O ego...esse ego insaciável, que diz: "dê- me poder; dê-me dinheiro para que eu valide minha existência". E as outras formas de validação? Não são muito melhores:"Dê-me aplausos; dê-me elogios, reconhecimento". Sim, o ego é um senhorio exigente e cruel que, na busca por legitimar o existir, destrói a  essência da própria existência.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Viva la vida

----Ana, chame o ilustre convidado, por favor.
-----Ilustre? Sei não, senhora. Ele usa saias.
-----Ora, Ana, somos inglesas. Estamos habituadas a escoceses.
-----Este homem é diferente, senhora. Ele usa uma armadura de ferro, ou bronze...sei lá.
------Pois bem. Que entre.
ALGUM TEMPO DEPOIS...
------  Compreendo... compreendo...sim, sim. É claro...Ana, pegue meu dicionário de latim no quarto. Perdoe-me pela interrupção. Acontece que não entendi sua última frase. Meu latim anda fraco. Grego? Não, não falo grego. Não se aborreça. Também acho a filosofia uma besteira, sem aplicação alguma. Claro. Claro. Guerras para dominar o mundo. Você é um homem prático. Pra que esmurrar a mesa? Concordo em dominar o mundo. Bom projeto de vida. Deve dar sentido à existência. Não se aborreça.  Meu povo? É...nossa língua não deriva do latim. É...vocês ocuparão parte de nossas terras. Fique calmo. Quem pode querer todo o Reino Unido? Só a Rainha. Não. Não Cleópatra. Elisabeth. Como? Está indignado porque não conhece a Rainha? Ela está sob seu domínio? Calma. Para que aborrecer-se com uma história tão chata? Ela é uma rainha sem poderes. Um tédio tremendo ser rainha. Como isso é possível? O fim de seu Império? Não. Quem falou em fim? Imagine só.....Ana, por favor, a campainha está tocando.
ALGUM TEMPO DEPOIS...
---------Muito bonita a relação sua com seu tataraneto. Linda a sinceridade com que você fala que você é o sol e ele, nada. Ana, dê mais bolachas a Louis. Como qual? Ao que está requerendo bolachas. Acho formidável essa idéia de o Estado ser você. Deve ser bom ao ego. Você não vai precisar de analistas. Ah, não sabe o que são analistas? Coisa de austríacos. Maria Teresa? Acho-a magnífica. Mas não recomendo a filha dela como Rainha. Por quê? Não sei...uma certa idéia fixa por brioches. Seu tataraneto ama fechaduras, não? Ele está, há trinta minutos, a desmontar a fechadura de minha porta. Chaveiro? Ah, ele preferiria ser chaveiro a rei. Por que olho tanto o pescoço de seu tataraneto? Não sei. Perdoe-me a indiscrição. É que é um pescoço tão nobre, alvo e belo, como uma coluna de mármore. É importante cuidar do pescoço, sabe? É uma parte muito útil do corpo, que negligenciamos. Claro...são uns pobres coitados esses comerciantes. E o povo? Por que não se contentam com a vista magnífica de Versalhes, não é? Ana, mais chá, por favor. Ah, não custa ter cuidado com Robespierre.
----------Você está bem, minha senhora? Está pálida. Escute, senhora, não se meta nisso. Por acaso, é contra liberdade, igualdade, fraternidade?
---------  Estou ótima. E não sou contra nada. É que não gosto de cabeças rolando. Mas, você tem razão, Ana. A austríaca será ótima esposa, Louis! Uma virtude só! Case-se com ela! Mais uísque ao gentil Imperador de saias, por favor, Ana. Ai, a campainha. Quem será?
MAIS UM TEMPO SE PASSOU
----------Não. Não é bom que discutam. Os dois são dignos de governarem a França. Aliás, você quer ter um Império sobre o mundo. Calma, há mundo para todos vocês...Não, não vá, no vade---ai meu latim deplorável!! E, você, perdoe Ana, meu bom homem. É claro que o senhor não é muito baixo para governar o mundo. Tolices de Ana. Essa mão sob o paletó é muito charmosa, alíás. Seu Código Civil será um sucesso internacional! Um estouro! Seu Império? É uma longa história...para que se aborrecer com histórias tão longas? É um homem tão ocupado! Dê minhas considerações à Josefina. Louis, calma. Igualdade não é bem assim. Como assim você não é igual a mim, Ana? Mas eu te pago. E você é livre. Você é igual a mim, Ana. Se eu sou igual a você, Louis? Ai, que pergunta difícil. Ninguém é igual a ninguém, Louis. Ana, uísque para mim, por favor. Concordo. Aquele João sem terras atrapalhou tudo, né? Mas a Rainha tem muitas terras...
ALGUM TEMPO DEPOIS...
------Espera um pouco. Mais valia é o quê? Meu pai se aproveita do trabalho dos operários?Mas eu adoro o Blair. Ausência de propriedade privada? Tudo do Estado?Mas e minha casa? Olha...essa história vai acabar meio mal em alguns cantos, meu senhor. Você precisa conhecer uns russos. Um momento, por favor. O que, Ana? Você vai embora? Eu te exploro? Como assim? Você é comunista agora? Não. Não quero Stalin nem Lênin aqui! O italiano bigodudo? Não! Credo, Ana...esse outro, então, nem pensar. Tranca tudo.Quem mais? Freud? Está atrasado, mas pode entrar.
ALGUM TEMPO DEPOIS...
-------É. O falo é tudo. Entendo. Édipo? Não. Os mitos não vieram hoje. Entendo. O cetro é o falo...Acho que você precisava falar com alguns desses caras. Como? Isso não é da sua conta! Isso é da minha intimidade! Ora, bolas! Não...não tenho paralisias súbitas. Não, não desmaio. Ora, o que faço com meu noivo é problema meu. Ana, você está indo embora mesmo? Com quem ? Com o cubano, que era amigo daquele médico bonito? Não, não vá, Ana. Robert Redford não está em Havana. Aquilo era só filme. Fique. Preciso de você. Você nem fuma charutos. O quê? Vai me processar por preconceito? Não! Eu amo Cuba! Guantanamera...lá lá...Viu? Até canto em espanhol! Ai, a campainha de novo!
ALGUM TEMPO DEPOIS...
--------É. Vocês trocaram as armaduras por ternos. Quem vão bombardear agora? Era mais o seu antecessor que gostava disso. Entendo.  Petróleo, né? Equilíbrio no Oriente Médio? Não? Ah, democracia, liberdade, igualdade. Calma, Louis. Deixe-o falar. Merci. Continue, por favor. Claro. Defender sempre a democracia. E o nosso imperialismo, né? Sem chances pra Brasil, China e India, né? Entendo. Reeleição é dureza. No dreams at all? Você é um homem prático. Compreendo. Não, Freud, falei de sonhos em outro sentido. Não. Não precisa interpretar tudo. Claro. O inconsciente rege tudo. Acho melhor cada um servir seu próprio chá. Ana se foi depois do discurso do alemão.
ALGUM TEMPO DEPOIS...
---------Querem saber? Estou cansada. Acho que cada um podia lavar sua louça, e ir. Chega! Não quero mais saber de seus planos! Todos fora! Não. Não entendo nada de política! Estou cansada. Não. Não me chame de alienada, senhor!Você está me xingando em alemão? O quê?! Ei, você, não sou histérica, não! Pode ir embora com os políticos e o sociólogo, doutor. Plebéia? Bem , isso sou. Burguesa? Também. Mas basta!! Saiam todos! Só Louis pode ficar. O tataraneto.
DEPOIS QUE QUASE TODOS SE FORAM:
-------- Diga-me, Louis... fale-me mais sobre suas fechaduras e chaves. Gostaria de lhe ouvir. Acho que desmontar e montar fechaduras é só o que importa no mundo todo...

Coldplay viva la vida [Official Video]

domingo, 22 de maio de 2011

A cortina

A cortina , leve  e transparente, esvoaçava, enquanto Anne amarrava a camisola branca  e de cetim à cintura. Blanca correu para soltar-lhe o coque e escovar-lhe os cabelos, a fim de assegurar-lhe  que o ritual noturno de anos não se atrasasse, naquela noite, por um sacrílego descuido de governanta. Anne percebeu que Blanca estivera distraída e que quase se esquecera dos cabelos platinados aos quais devia cuidados e honrarias.
Como sempre, Anne sentou-se em frente à penteadeira e contemplou o escovar servil da mulher que lhe seguira pela vida, tal qual sombra. Os olhos azuis ,diminutos pelas pálpebras enrugadas, olharam-se, procurando algo. Acharam apenas um excesso de rouge nas bochechas. Anne repreendeu a si mesma, em pensamento; afinal, uma dama não pode usar tanto rouge!
----Blanca, eu já lhe falei de quando os reis me receberam para um chá? Sim, cara Blanca, eles exigiram minha presença no chá da tarde do mês de setembro daquele ano em que papai produziu mais tecidos do que todo o Reino Unido. Lembro-me da deferência com que me receberam!
O vento mais forte fez a janela ressonar, e Anne interrompeu sua narrativa. Havia um furo na cortina.
------Blanca, onde já se viu? Um furo na cortina de mamãe! Que horror! E se o duque e a duquesa resolverem passar o final de semana aqui? Ora, Blanca, como vou pedir à Rainha um marido para você, se é tão relapsa? Que homem decente vai querer mulher assim?
A governanta, de forma apática, com o sotaque estrangeiro habitual, pediu-lhe perdão e prometeu novas cortinas.
-------Bem, onde estava eu? Ah sim...a porcelana da rainha...magnífica,mas igual à de mamãe...em nada, ficamos aquém deles. Preciso de um vestido primaveril caso me convidem para o jantar da Princesa.
Blanca suspirou cansada. Anne, com astúcia que lhe era de praxe, percebeu que sua interlocutora estava enfastiada e não tardou em repreendê-la.
-----Ora, ora, como vou arrumar um conde para você, se é assim tão sem modos?
Mais uma vez, Blanca se desculpou sem convicção, e olhou a rachadura no espelho da penteadeira. Ergueu Anne e escorou-a até a cama, passando por sobre a antiga mancha de café do carpete. Irritou-se com o cheiro de mofo e até espirrou. Anne não demorou em repreender-lhe o espirro.
------Ora, Blanca, como apresentar ao rei governanta tão doente? Você sabe que, em breve, ganharei o título de lady, não?
Anne deitou-se vagarosamente na grande e antiga cama e, ao fazê-lo, o tumor de seu abdome despontou saliente. Blanca desviou o olhar, temerosa. Tinha medo daquela massa volumosa que era como presságio da morte.
-------Ah, o espelho está rachado, Blanca? Que vergonha! Faça algo amanhã mesmo. Chame Charles para fazer nova penteadeira, com mármore rosa desta vez. Quanto descuido! Já lhe contei sobre o broche que a Rainha me deu? Que jóia magnífica! É claro que, em nada, as de mamãe ficam aquém. Pois bem. Imagine se a Rainha tem penteadeira quebrada!
Uma rajada de vento mais frio adentrou o quarto, e Blanca correu para fechar as janelas. Olhou para o jardim e desejou fugir. Há muito, estava presa à Anne por lealdade e desejo de sobrevivência. Temia passar fome longe dali. E, acima de tudo, tinha medo de que a consciência a acusasse de traição caso fugisse. Um rato fez barulho e interrompeu os devaneios da governanta. Anne olhava fixamente para o teto e, estranhamente, não se queixava, em azedume, do bolor deste. Sua mente estava distante daquele mofo, passeando pelo Palácio real, décadas antes, quando seu pai ainda não havia ido à falência e ela tinha muitos pretendentes na Câmara dos Lords.
Blanca invejou Anne, mesmo vendo-a circundada por decadência e doença. Invejou sua cegueira. Invejou sua capacidade de validar uma existência falida e estéril com uma ridícula e longínqua tarde no Palácio, da qual nenhum membro da Família real jamais se recordaria. Teve vontade de gritar-lhe que ela era só uma velha decadente e pobre, que sobrevivia às custas da generosa pena de alguns clientes antigos de seu pai. Teve vontade de gritar que era ela, inglesa de berço, que jamais conseguira marido algum, e não a espanhola serviçal. Calou-se, porém. O vento movia alguns galhos no jardim, que ficavam sinistros na escuridão. Em breve, Blanca se recolheria ao seu quarto, onde a solidão e o silêncio lhe trariam alguma paz. Ela voltaria a existir, e deixaria, por algum tempo, até que o novo dia despontasse, de ser o apêndice da existência de Anne.
------Blanca, já lhe falei do dia em que os reis me receberam?
A governanta respirou fundo e, do interior de seus olhos negros, pequenas partículas de complacência emanaram para os olhos azuis e cansados que a perscrutavam. Eram partículas quase palpáveis e visíveis. Disse a voz catalã, em sincera doçura:
-------Sim, já me contou. Tente repousar agora. Já é tarde.
O tumor elevava-se por sob a camisola e Blanca sabia que não era só o mísero dinheiro daquele lugar que a mantinha ali, com as refeições garantidas. Havia algo no azul daqueles olhos que lhe fazia desejar que os reis, um dia, convidassem Anne novamente para o Palácio. Mas, é claro, que ela sabia ser isso impossível. E, sabendo- o, decidiu que, pela manhã, faria um remendo na cortina. O furo desta era mesmo feio e desagradava a ela também. Cortinas eram importantes para que não se visse e não se fosse visto sem aquiescência. Mas como ela justificaria um remendo à Anne? Bem, ela pensaria em algo. Diria que remendos são úteis. “Sim, remendos são úteis. Sim, cortinas são importantes. Mesmo que quase transparentes”---repetiria Blanca, no seu privado aposento,a si mesma, até que adormecesse.

domingo, 27 de março de 2011

Carta à Tatiana

Cara Tatiana,
Saudações da prima que muito lhe quer bem!
Minha cara, veja só em que engraçada confusão me meti: caminhava conforme me disseram papai e mamãe. Em linha reta. Estrada boa. O tempo também estava agradável. Era perto do lago onde nadamos naquele Natal. Lembra-se? Bem, já não importa. De repente, tropecei e ouvi novas instruções acerca da trajetória a tomar, vindas de vozes estranhas.Vozes de desconhecidos, pretensos conhecidos. Optei pela direita numa bifurcação, conforme me fora ordenado. Foi na altura daquela árvore frondosa, perto da fazenda do tio Mário. Recorda-se? Ah, já não tem importância. Os aplausos foram tantos pela opção feita! Seduzida, optei pela direita na próxima bifurcação também, esperando nova ovação. No entanto, só vaias obtive. Olhei, envergonhada, e ninguém vi. Era só minha a caminhada. Mas, os outros, ainda assim, de algum lugar, importunavam-me. Optei, então, pela esquerda  na outra encruzilhada. Aplausos, ansiosa, esperei. Silêncio. Estava só. E só caminhei por longo período até ouvir novas vaias. "Mas, agora, pelo quê?"-pensei. Não havia desviado a trajetória, nem em um só milímetro, nos últimos três quilômetros! Ah! Quando percebi, já não sabia para onde ia. Estou numa cidade que se chama Vassfghborgstrassmanhig.  Não consigo pronunciar o nome desse vilarejo. Devo ter a língua presa. Não é possível. Nome simples como esse.Bem, não conheço ninguém aqui. Estranhamente, não soube dizer meu nome na pousada onde queria fazer check in para pernoitar. Já é tarde. Veja só que tolice a minha! Esqueci-me do meu nome....ah, sua prima é uma tola...estou a gargalhar. Que piada! Vamos todos rir desse incidente bobo no próximo Natal, sem dúvida. Pensei em ir visitá-la  mas , daqui, não sai trem para sua cidade. Esqueci-me da capital de nosso país. Poderia pegar um trem até lá para a conexão, né? Ah, sua prima é uma tolinha mesmo. Aprontando nesse agradável e pitoresco vilarejo... A temperatura lá fora deve ser de menos vinte graus. Tudo bem.Estou com o casaco da tia Ana. Aquele vermelho, de lã. Lembra-se? Ah, não importa.  Você se importaria de me escrever dizendo meu nome? Ah, ajudaria dizer a capital de nosso país.Ajudaria , quem sabe, dizer o nome de sua cidade. Bem, acho que já que vai ter o trabalho de me escrever, poderia dizer, na carta, também como se chama o país em que estou. É só curiosidade.Ah, o nosso país! Como era o nome mesmo? Nada disso é urgente.Não tenha pressa, por favor. O importante é que ouvi dois aplausos enquanto procurava o Correio mais próximo. É sinal de que estou bem. Minha meta é voltar a ser ovacionada pelas multidões anônimas. Veja, eu nunca sei de onde vêm os aplausos ou vaias. Curioso, não? Estou a gargalhar sozinha de novo. Muito cômico..Ah, se não for muito incômodo, você poderia me parabenizar por algo na carta? Digo, só se não for incômodo...
De sua prima,
Ai não me recordo o nome. Perdão, Tatiana.

A Mulher de Ló

   Antônio estava atordoado,  e dizia, em meio ao pranto, ter visto a mulher de Ló. Sua esposa achava que era a pinga que o fazia falar tolices e começou a passar um café forte. Antônio jurava que era a mulher de Ló que ele vira, apesar da descrença sarcástica de sua interlocutora: "Não, Dulce, ela não virou pedra. Não é piada. Ela já era pedra". Ele fez uma pausa para aparar uma das muitas lágrimas que lhe escorriam pela face. Com os cabelos desalinhados e roupa suja, prosseguiu: "Ela era bonita. Loira. Com os olhos pintados. Mas nunca, na vida, vi olhar duro como aquele. Eu lhe pedia desculpas por estar chorando e por estar com aquelas roupas na hora do serviço.Ela não tinha como saber o porquê". Antônio se calou ao lembrar o gelo que sentiu diante daqueles olhos e do silêncio da boca pintada de batom. Dulce olhou para ele, e replicou: "E você, homem, chorou no serviço? Não podia se conter?" Ele disse que não. A esposa, em tom pragmático, perguntou se caberia uma ação trabalhista contra a tal mulher de Ló. Antônio deixou o tom melancólico e, um pouco aborrecido, disse: "Claro que não. Não há lei que obrigue alguém a não ser pedra. Além disso, sou eu que agonizo em Sodoma, não é?" Dulce irritou-se: "Pare com história de Ló e Sodoma, homem. Ficaste louco? Conte, enfim, por que chorava." Antônio respirou fundo e, preparando-se para nova leva de lágrimas, disse:   "Porque mandaram-me embora". Dulce paralisou. Antônio temeu que ela fosse se petrificar também. Outro olhar como aquele, ele não suportaria no mesmo dia. Mas, felizmente, Dulce chorou, e Antônio respirou aliviado. Sua mulher era de carne e osso, e até tivera a delicadeza de desviar os olhos dos de seu marido...Ao final da noite, ninguém conseguia conciliar o sono naquela casa, e a tristeza reinava. Antônio,todavia, no seu íntimo, alegrava-se por, nunca mais, ter que ver os olhos da mulher de Ló. Preferia ser ele um Jó na vida a cruzar com aquele ser de pedra, num elevador,outra vez.

À humanidade

     Em algum lugar do mundo, neste momento, há uma enfermeira que se esqueceu do valor do que faz porque não lhe pagam bem. Há também um porteiro que não entendeu que vale tanto quanto aqueles que, no prédio que ele vigia, moram; há  ainda um cobrador de ônibus- e eu quase o vejo com clareza- que não reconhece que é tão importante quanto aquele rosto da primeira página daquela revista de ricos e famosos. Há uma mulher grávida que não compreende a magnitude da graça que lhe é dada pois lhe disseram que era uma desgraça gestar vida em meio à pobreza. Há uma professora que se sente menos útil do que o acionista de Wall Street. Há um médico que inveja os legisladores que aumentam o próprio salário e se olvidou do caráter sagrado da profissão que abraçou. Em algum lugar, uma criança não sabe ainda o que é amor. Quando descobrir, já será tarde demais. Noutro lugar, um pai se esqueceu da importância de sua missão. Em qualquer lugar, alguém chora porque o mundo virou de ponta cabeça , enquanto todos tentam fingir que ainda estão em pé. Só pode se levantar quem sabe ter caído.

sexta-feira, 18 de março de 2011

Os porcos e as pérolas

         Alice contemplava, assustada, o porco com o colar de pérolas de sua tataravó no pescoço. O animal chafurdava-se na lama, alheio a tudo e a todos, mas com a elegante jóia ostentada . É bem verdade que as pérolas estavam escurecidas pelo lamaçal que lhes respingava mas, ainda assim, eram pérolas preciosas, herança de família. Alice temeu que o colar se rompesse num dos movimentos mal calculados do porco. Ele era, todavia, pesado demais e movia-se, por essa razão, vagarosamente, sem rompantes. É possível que o colar não se desfizesse, portanto. Alice percebeu, então, que estava coberta de lama, e que o porco crescia cada vez mais. Olhou para baixo e viu pés rosados. Ou melhor, patas. Eram quatro. E eram suas. E ela nem sequer tinha o colar de pérolas que lhe era de direito! Passado algum tempo, outros porcos chegaram e a lama, aos poucos, transformou-se num lago de pérolas manchadas pela chafurda, onde chafurdaram-se todos alegremente.

sábado, 26 de fevereiro de 2011

La tendresse, de Daniel Guichard

La tendresse
C'est quelquefois ne plus s'aimer, mais être heureux
De se trouver à nouveau deux
C'est refaire pour quelques instants un monde en bleu
Avec le coeur au bord des yeux

La tendresse, la tendresse
La tendresse, la tendresse

La tendresse
C'est quand on peut se pardonner sans réfléchir
Sans un regret sans rien se dire
C'est quand on peut se séparer sans se maudire
Sans rien casser, sans rien détruire

La tendresse, la tendresse
La tendresse, la tendresse

La tendresse
C'est un geste, un mot, un sourire quand on oublie
Que tous les deux on a grandi
C'est quand je veux te dire "je t'aime" et que j'oublie
Qu'un jour ou l'autre l'amour finit

La tendresse, la tendresse
La tendresse, la tendresse
La tendresse, la tendresse
La tendresse, la tendresse

Daniel Guichard

A ternura

    A ternura não vai ser pauta das discussões da ONU sobre a paz mundial. A ternura não fará nenhum cientista descobrir a cura para o câncer. A ternura não muda em nada o mecanismo de ação dos antidepressivos.  A ternura não diminui o aquecimento global. A ternura não é assunto da Comissão de defesa dos Direitos Humanos. A ternura não interessa ao G20. A ternura não resolve as crises econômicas. A ternura não evita que a economia européia afunde. A ternura não impede que a profecia maia sobre o fim do mundo se concretize. A ternura não nos protege de meteoros gigantes. A ternura não traz dinheiro. A ternura não aumenta o salário mínimo. A ternura não eleva a disponibilidade de água doce no planeta. A ternura não mata o vírus que causa a  dengue.  A ternura é só uma palavra distante para quem tem fome neste instante e pode vir a morrer de desnutrição no próximo. A ternura não é científica. A ternura não pode ser comprovada. A ternura é piegas. A ternura é brega. A ternura não está na moda. A ternura não é séria. A ternura é demagoga. A ternura é ridícula. Mas eu não consigo pensar em mais nada que possa salvar o homem de si mesmo.

sábado, 19 de fevereiro de 2011

Billy Joel- Vienna (with lyrics)

Reflexão a partir do filme Mar Adentro

      Ramón dedicou mais de vinte anos de sua vida no firme propósito de morrer. Luta obstinada contra o viver. Não percebeu ele que, durante a batalha ferrenha, a vida foi-lhe devolvida: pôde amar e ser amado, cuidar e ser cuidado, pensar e escrever, ter ideias e criar, mais do que muitos dos que andam e correm jamais o farão. Mas ele estava cego, obstinado por provar que a palavra final era a dele. Não viu que a vida estava ali, rondando-o, convidando-o. Não viu, nem sequer, que enquanto perseguia a morte, ele experimentava a vida com certo prazer e que até já aceitava muitos de seus convites. Mas era preciso vingar-se do destino, de Deus. Era preciso dizer que não era aceitável que um infortúnio ou vontade de um Ser superior lhe confinassem à cama. A última palavra tinha que ser a dele. Nós não escolhemos o dia de nascer. Mas ele precisava escolher o de morrer. Era isso que ele queria no dia trágico que mudou o rumo de sua história? Havia sido o pulo na água uma tentativa de suicídio? Não sei.
       Inconformado, ele fez da morte seu ideal de vida, a razão do existir, a ideologia a ser defendida. Não viu que as razões do existir eram outras, muitas e pequenas; eram banais deveras e, ao mesmo tempo, sagradas.Sim, o viver escondia-se em cada sorriso, em cada carinho, em cada ajuda que lhe prestavam e que ele prestava. A vida o cercava amorosamente, de forma delicada. Não percebia ele que, na imobilidade de seu leito, era objeto e sujeito do milagroso amor que une famílias, amigos, amantes. Milagre que muitos que se locomovem não experimentam. Mas seu compromisso era com a morte, pois era necessário ser o senhor do destino.
       Todos nós erramos e erraremos nesta vida, inexoravelmente, por não sabermos identificar em que momentos devemos interferir no curso da vida e em que momentos devemos aceitá-lo.Ou melhor, nunca saberemos , exatamente, como aceitá-lo, modificando-o suavemente conforme ele mesmo permita, através de "portas", "brechas". Nada nunca é uma prisão deveras. Mas é um dos atos mais difíceis para o ser humano negociar com a vida, reinterpretá-la, reinventá-la, ser-lhe flexível, sem ser inerte. Ser sujeito ativo da existência dolorosa ,sem com ela romper, é um desafio para todos os que sofrem.
        Não tenho a audácia de antever como agiria em situações que não vivi jamais. Por isso, tenho empatia diante do que, hoje, chamo de "erro" cometido por Ramón na eutanásia. Poderia ser meu erro, sem dúvida. Mas nada me impede de idealizar,pretensiosamente,  um eu que pudesse optar pela vida numa situação semelhante.
         Estranhamente, o filme que pretendia convencer-me da validade da eutanásia ativa num caso de tetraplegia, fez-me ver quão grande é a capacidade do ser humano de se adaptar e encontrar  vida onde imaginaríamos só haver dor e sofrimento. Ramón VIVEU naquele leito de seu quarto por mais de duas décadas. Sua vida foi digna. Mais digna do que a de muitos que se locomovem. E, por isso, ele merece profunda admiração e respeito.


domingo, 6 de fevereiro de 2011

Poucas palavras de início de fevereiro...

Fevereiro começou com muitas imagens e sons no blog, e com poucas palavras escritas...
Também na arte que me toca, na que eu amo, existe algo meu, do que eu quero falar, tanto quanto no que eu escrevo.
E, além do mais, sempre adorei as imagens, as músicas. E estas, por sua vez, sempre me levaram a escrever.
Nunca soube cantar e não seria boa cineasta...mas deixo que fale, por mim, aquilo que,a mim, muito fala.

Anonimo Veneziano, 1970 Final

ESSE FILME, PARA MIM, É UMA DAS METÁFORAS DO AMOR

Keane - Everybody's Changing

sábado, 15 de janeiro de 2011

O Haiti é aqui.

     A água separou a senhora do cachorro. A imagem correu o mundo.A mulher tentara salvá-lo. Falaram-lhe que não amarrasse a corda de salvamento nele também. Só nela. Ele era supérfluo. As tragédias têm esse poder de transformar o essencial em dispensável e de profanar o sagrado. Um homem fala que perdeu filhos, esposa, nora. Ele está em choque. Sua voz não tem modulação. Eu já o imagino chorando de fronte a um psiquiatra, no Centro de Saúde, daqui a alguns meses. A mulher grita em frente ao IML. Era mesmo o corpo da irmã! E agora? O psiquiatra que imagino vai amaldiçoar a indústria farmacêutica que, numa imensa incompetência, não inventou o remédio para quem perde a vida antes de morrer. Nicho não explorado do capitalismo... Alguém precisa alertar os laboratórios.Seriam rios de dinheiro. Com a força da água que levou o cachorrinho. No Centro de Saúde, haverá alguns tipos de antidepressivo. O psiquiatra, se não for ateu, vai rezar para que um deles funcione. No livro em que ele estudou, há muitas outras opções de medicação, mas o Estado não as compra.Então, é melhor que o paciente melhore com o que há no SUS. O psicólogo vai iniciar a terapia . Mas, e se sua agenda estiver lotada? Ah, nesse Centro de Saúde, não tem psiquiatra? E agora? Por que será? E o salário dos deputados? Como ficou? Que fim deu? Ah, não estou escrevendo coisa com coisa. Estou confusa.Perdão. Escrevo sem nexo. Por vaidade, gabaritei uma questão de prova em que redigi que o plano diretor urbano é obrigatório para cidades com mais de 20.000 habitantes. Tirei dez! Alguém tirou zero quando essa mesma questão caiu na prova da vida. Ah! São ocupações irregulares, ilícitas...mas, por que alguém mora num lugar irregularmente? E as mansões que desabaram? Dá para processar a Prefeitura e reaver os IPTUs? E dá para reaver as vidas? Em que Comarca se entra com esse processo para reaver as vidas?Vidas? Estou confusa. Já me perdi. Supérfluo, essencial, supérfluo, essencial...A ira me confunde a cabeça. Aliás, me falaram que tudo era fruto da ira de Deus. Não. A ira é minha mesmo contra os políticos. Força maior? Motivo de força maior? Quando a força maior se repete na mesma época do ano, no mesmo local, há anos, a única coisa sobre a qual ela é maior é a inércia de quem faz a gestão do município, do estado, do país. Odeio apontar dedos. Mas, hoje, não vejo outra opção.Alguém importante disse que estadistas pensam nas próximas gerações e políticos, nas próximas eleições. E quem governa sem pensar em nenhum dos dois? Não me falaram como se chama. Estou escrevendo sem começo, meio e fim. Ira? Meu Deus, me perdoe pela ira. Quem falou que a ira era Sua, se esqueceu de que Suas mãos são chagadas e Se colocam sobre as frontes dos filhos para trazer consolo. Colocoram cadáveres na Sua casa.  Por que tanto susto? O Dono da casa recebe as almas. Uma alma é essencial. Quantas vezes não fui à Sua casa com a alma distante de Vós? A alma que não Vos ama é que profana Vossa casa. Não um corpo, que criastes, mesmo que esteja sem o sopro da vida. Na verdade, a alma que não Vos ama profana a si mesma. Não escrevo com nexo, né? O nexo é supérfluo nas tragédias. Diante do rosto que chora, as ideias minguam. Caetano cantou que o Havaí fosse aqui. Sinto muito pelo menino do Rio. O Haiti é aqui. Sempre foi. E eu finjo que não é assim, e tiro zero na prova da vida.

domingo, 9 de janeiro de 2011

Qual é a música?

Carlos estava no ponto de ônibus, sobre o banco de cimento, em pé, para que a forte chuva não o atingisse, com suas rajadas laterais provocadas pelo vento . Abrigava-se sob a cobertura de plástico. Pingos gelados salpicavam-lhe o rosto e o corpo mesmo assim. Nas mãos, a pasta azul, também de plástico, continha os recibos das contas pagas e as cobranças daquelas para as quais o saldo da conta fora insuficiente. Agora, a noite caíra e alguns poucos carros passavam fazendo jatos d`água invadirem, com violência, a calçada.
A chuva sobre o plástico que o protegia fazia um barulho irritante e constante. Ainda assim, uma música repetia-se na mente de Carlos e seu pensamento se contorcia para descobrir que melodia era aquela. Seria de uma novela antiga? Seria de algum filme dos tempos de garoto? Sim! Era de um filme! Mas, qual? Sua cabeça calva estava gelada e molhada. Ele verificou se a água não entrava na pasta. Não. Os papéis estavam a salvo. Por que o ônibus demorava tanto? Ainda choveria quando ele tivesse que pegar o segundo, rumo à sua casa. Rita estaria adormecida. Se não estivesse, reclamaria das contas não pagas, da falta de saldo, da falta de emprego, da falta de reboco onde pingava goteira, da falta de amor, da falta de virilidade, da falta, da imensa falta. Carlos fizera um ano de francês na adolescência. A música era francesa? Não, não era. E inundava-lhe de melancolia. Anunciava-lhe uma perda terrível, irreparável, uma falta, dessas gigantescas, que a tudo ocupam e de tudo se apossam. Falta espaçosa aquela. Como seria bom ter um carro! Rita sempre falava isso num tom que o humilhava por não possuir um. Era tão bom ir ao cinema com ela quando eram jovens. O frenesi do toque da mão juvenil! A mão gelada apalpou a pasta molhada mais uma vez. Os papéis estavam salvos. Bardot, Cardinale, Delon, Audrey Hepburn. Era a música de Bonequinha de Luxo? Não, não era. Julie Christie. Era o Tema de Lara? Não, também não. Girassóis da Rússia?Mas que droga! Não! O pensamento teimava em não achar o nome da melodia, o que era preocupante porque melancolia não nomeada é como fera bestial sem dono que a adestre. Muito perigoso. Ainda mais naquela chuva. Um carro passou em velocidade mais alta do que a dos demais e o fim do jato d`água resvalou no peito de Carlos. Ele se lembrou! Era a música do “Verão de 42”! Vira o filme numa tarde chuvosa depois de um exame final do muito promissor curso de datilografia. O ônibus chegou. Pareceu, um dia, que a vida seria filme, com moça bonita apaixonada, com trilha sonora. A vida não foi filme. A vida não imitou filme, nem dos tristes. Até a tristeza da vida era sem graça, sem música melancólica orquestrada. Era só tristeza vira-lata, apressada, que assalta a gente entre o almoço corrido e o ponto de ônibus. Tristeza sem música era mais triste. Ninguém lhe avisara. Amor fora do Cinema desbotava. Ninguém lhe prevenira. Carlos tropeçou  e espatifou-se na calçada. A pasta arremessada atingiu a poça d`água. Ele ergueu a cabeça e viu que os papéis haviam sido molhados. Os recibos e contas estariam encharcados e,por horas a fio, isso fingiria ser a maior tragédia da vida de Carlos e Rita. E a melancolia até seria amenizada. Bendita poça d`água deste verão de 2011! A melodia partiria e, com ela, a saudade do que, certa vez, se sonhara.

Summer of 42 - Jennifer O'Neill / Music by Michel Legrand