domingo, 3 de julho de 2011

Atestado

   Lindolfo guardava, ainda, a pasta de documentos que levara para o dia da admissão na repartição da subdivisão do Departamento da seção...enfim, aquele emprego estável, sonhado e cobiçado por todos na sua cidade de quinhentos habitantes. Na pasta, o papel amarelado atestava que Lindolfo havia nascido. Embaixo dele, o  atestado de ter concluído o Ensino Médio se mostrava um pouco rasgado, o que causara desgosto em Lindolfo. O atestado de que se casara estava intacto, todavia. O papel que atestava seu divórcio estava um pouco manchado. Ah! Sim! O atestado de cidadão do ano, daquele ano bom, antes que sua mulher se fosse! Que lindo papel! Com o brasão do Município!
   Lindolfo, que nunca bebera até os 42 anos, entornou um copo de pinga. Lembrou-se do atestado de doença que levara ao emprego naquele dia. O primeiro em vinte anos de bom serviço! Depois, foi o papel que atestou que ele havia sido demitido, que ele carregou para casa. Havia ainda o papel que atestava que a biópsia era mesmo de câncer.Atestado pesado aquele. Encurvara-lhe as costas de tanto peso.
   Lindolfo, em seus devaneios, pensou que deveria ter pedido à esposa um atestado de que ela o amava no dia em que se casaram.Ele poderia ter usado isso contra ela e tê-la obrigado a ficar. Mas qual cartório ,no mundo, emitiria isso? Deveria, quem sabe, ter requisitado atestado de que era "cabra macho" para aquele doutor que examinou aquela verruga estranha que lhe constrangera. O papel que dizia que ele fora o cidadão do ano de Miserópolis não atestava que ele havia existido. Será que alguém poderia dar-lhe um atestado de existência? Mas quem faria tal disparate--pensava Lindolfo-- enquanto roía as unhas. Mais um gole de pinga, e Lindolfo pensou que , por segurança burocrática de um bom ex-funcionário, convinha já pedir o atestado de óbito para arquivar naquela pastinha.Ele não poderia confiar o arquivamento de papel tão importante a outrem que não ele. A organização era essencial até para morrer. Mas qual médico atestaria morte num vivo?
     A campainha tocou. Eram Carlos e a esposa, vizinhos de Lindolfo. Carregavam um bolo de chocolate e um sorriso burguês. Deram parabéns a Lindolfo. Ele quase correu à pastinha para se certificar de sua data de nascimento. Conteve-se, todavia, e tentou ser simpático. O açúcar do bolo  trouxera um pouco de lucidez à mente embriagada. O atestado de existência era comestível, tinha uma vela que se derreteria, e acabaria em pouco tempo. A memória era cruel e  não registraria o atestado em seu banco de dados. Mas, por alguns instantes, Lindolfo achou que a burocracia da vida sorria-lhe mais uma vez e  até procurou uma máquina fotográfica, mas não a encontrou.
   

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