-----Sra. Rinaud, eu insisto: pare de escrever sobre o lugar comum. Ninguém o aguenta mais. Todos já escreveram tudo sobre ele. É medíocre!
-----Sr. Richard, por favor, você é só o homem dos números, dos negócios. Eu sou a artista.
-----Ah! O ego ! Esqueci-me de seu ego! Ele já não cabe nessa sala, viu?
-----Eu a mandei reformar para caber. Não se preocupe. Vou ampliá-la. Richard, corte o papo furado e mande entrar o Lugar-Comum
-----Está bem, madame...
------Olhe só que absurdo, madame. Ele usa camiseta branca, jeans e tênis.
------Sim. E eu o vejo todos os dias. Ele me traz as notícias mais importantes de minha vida. Anuncia minhas dores e alegrias. Não é sem motivo que falam tanto dele. Ele é versátil. Está em qualquer canto. Não é estranho a ninguém neste mundo. Quando choro ou rio, ele sempre está ali. Existir é usual. A roupa dele é mesmo casual.
-------Mon Dieu! Como explicar-lhe? As pessoas querem ler sobre o inusitado. Querem surpresas!
-------Ora, que procurem um mágico! A vida é uma repetição neurótica!
-------Permita-me apresentar o Não-Lugar-Comum, por favor, madame.
-------Que nome comprido! Já me desagradou!
-------Prazer, Não-Lugar-Comum. Bela camisa. Brilha um pouco demais...Richard, por favor, traga-me óculos escuros. Suas calças são farrapos? Sim...sim...te escuto...é para contrastar com o glamour do brilho. E esse chapéu? Ah? O quê? Não tem explicação? Por quê? Porque o não lugar comum não pode explicar tudo...faz sentido. Achei a ideia do contraste entre brilho e pobreza lugar comum, na verdade. Não! Não se ofenda, por favor. Você é um ser original, Não-Lugar-Comum.
--------Richard, não confiei nesse Não-Lugar-Comum. Sabe aquela dor vadia? Ele não a conheceu e nem adianta apresentar. Ele se recusa a vê-la. Qual dor? Ora, Richard, aquela que vem no ônibus das cinco, no caminho para casa. A dor arroz com feijão.
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--------A dor vadia não vende livro, madame.
--------Mas é ela que dói, Richard. Olhe: eu já fui surrealista mais de uma vez. Foi interessante. Mas não o posso ser sempre. Mande entrar Napoleão, César, Louis XVI e XIV, Freud e Marx. Foi excêntrico falar com eles. Mas, no final do dia, a dor é mesmo tola, inculta. A dor não estudou Sociologia. A dor não é politicamente correta. A dor não é poética. A dor só dói. E se dói, preciso escrever. Richard, eu até escrevi para Tatiana do fim do mundo. Era um lugar comum disfarçado. Sim. Eu pedi que ele usasse uma echarpe de purpurina sobre a camiseta branca para sair da monotonia. Ficou bom. E ele não reclamou. O lugar comum é bem solícito. Por isso, todos dele falam, aliás.
---------Mas seu lugar comum é chato.
---------Discordo. Ele fala francês e tem olhos azuis. Eu gosto muito dele. A camiseta branca pode ser uma metáfora. O jeans, também. Não é possível que eu precise de excentricidade para falar de simbolismos. Se os escancaro em algo surreal sempre,já não há metáfora. Além do mais, você não sabe quão difícil é convencer Napoleão a tomar um chá da tarde. Ah, houve também a menina com os porcos e as pérolas. Gastei uma fortuna para conseguir as pérolas. E os porcos não eram domesticados. E ainda me sujei de lama...credo! Não aguento essa vida todo dia. Já fui a mercado de desejos; já fui a loja de amor...preciso do Lugar-Comum para repousar. Ele me sorri com o cotidiano e não me cobra nada. Ele me dá segurança. Acho até que vou pedi-lo em casamento!
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--------Madame, você é um caso perdido. Vai acabar escrevendo folhetins.
-------Richard, o único medo meu é escrever algo que não seja real. Sou tão fiel à verdade quanto uma jornalista. Com uma única diferença: a verdade é a minha. Não a do mundo.
-------Ah! Então, não é lugar comum...
-------Lugar-Comum, dê-me um beijo e mande Richard embora. Ele já me cansou.
-------Madame, seu ego está espremendo a poltrona de couro de 10.000 dólares.
------- Mande-a tirar. Meu ego precisa de espaço. E se ele se perder, ache-o, Richard! Da última vez, fiquei sem ele por dez dias, depois daquela crítica horrível sobre o meu livro.
--------Culpa do Lugar-Comum. Aliás, seu ego e eu brigamos. Não queria te contar para não te aborrecer.
--------Richard, meu ego é frágil. Faça as pazes já. Eu vou tentar convencê-lo a te perdoar, mas você sabe que ele tem mau gênio...Eu mesma o amo e o odeio, mas me disseram que é fatal despedi-lo. Então, é melhor aceitar os encargos trabalhistas dele. Temos que o aceitar. Agora,deixe-me a sós com o Lugar-Comum. Vamos ouvir uma música piegas com vinho. Somente ele me entende. Ah...arrume umas calças jeans para o Não-Lugar-Comum. Ninguém é obrigado a ver suas nádegas em meio aos trapos para provar-se que há contraste entre o lixo e o luxo. Ai, que lugar comum, aliás! Ah, mais uma coisa: convide a Gramática e a Ortografia para um jantar. Vou tentar reconciliar-me com elas depois daqueles incidentes. Pode deixar, Richard...o ego me alertou sobre minhas faltas.
Gostei!!!
ResponderExcluirbjos