terça-feira, 12 de julho de 2011

F comme femme

      Na mesa do café do Jardim da Tulherias, um passarinho ousava petiscar as migalhas de quem lá se fartara antes dela.Quem ela era? Ela era uma femme. Ainda não fizera seu pedido ao garçom. O tempo esfriara em toda a França, e ela enrolara o cachecol junto ao pescoço, com graça. Ao fundo, a música de dentro do bistrô falava de "f comme femme."
       As folhas eram de outono, amarelas como seu sorriso ao garçom. Este limpara a mesa e expulsara o passarinho glutão, enquanto ouvia o pedido da mulher. Frágil e rapidamente, a pequena ave voou para o abrigo de alguma árvore. E a mulher  queria convidá-la a retornar e compartilhar as migalhas daquela refeição, mas não teve coragem. Ela deveria ter escolhido uma mesa dentro do recinto, pois não era primavera em Paris e as folhas são mortas-já dizia a outra canção. As flores? Ah! As flores vivem por pouco tempo. São frágeis. "Force" não pode ser o oposto de "fragilité", se ambas são tão conhecidas de seu ser. Mas há uma força que só a fragilidade pode conhecer. É a força de não sucumbir.
       Amar era prazer e martírio. O "f" de "femme" é de "fatalité". A anatomia não desmentiria a alma. Há um vazio que só uma mulher pode conhecer. Do vazio, uma esperança nasce. E, com ela, vive uma imensa melancolia. A esperança, um dia, se cansa e a melancolia grita "fatalidade", onde havia só a verdade. "F" de falso. A refeição estava gelada. O passarinho não voltara. O garçom errara o troco e não pedira desculpas. Ele lhe diria que sua dor de femme é encenação, e que flores são clichês. Ser mulher é o maior dos clichês.
      Um dia, bem velhinha, ao deixar este mundo, ela diria a Deus que a dor maior de todas fora a de ser mulher. Desperdício "d`être femme".Como o das flores belas e piegas que murcham e morrem numa semana. Um grande desperdício não ser colhida. Um grande desperdício ser colhida e sucumbir. Um grande desperdício não ser a "femme".

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