quarta-feira, 13 de julho de 2011

Lugar-Comum

-----Sra. Rinaud, eu insisto: pare de escrever sobre o lugar comum. Ninguém o aguenta mais. Todos já escreveram tudo sobre ele. É medíocre!
-----Sr. Richard, por favor, você é só o homem dos números, dos negócios. Eu sou a artista.
-----Ah! O ego ! Esqueci-me de seu ego! Ele já não cabe nessa sala, viu?
-----Eu a mandei reformar para caber. Não se  preocupe. Vou ampliá-la. Richard, corte o papo furado e mande entrar o Lugar-Comum
-----Está bem, madame...


------Olhe só que absurdo, madame. Ele usa camiseta branca, jeans e tênis.
------Sim. E eu o vejo todos os dias. Ele me traz as notícias mais importantes de minha vida. Anuncia minhas dores e alegrias. Não é sem motivo que falam tanto dele. Ele é versátil. Está em qualquer canto. Não é estranho a ninguém neste mundo. Quando choro ou rio, ele sempre está ali. Existir é usual. A roupa dele é mesmo casual.
-------Mon Dieu! Como explicar-lhe? As pessoas querem ler sobre o inusitado. Querem surpresas!
-------Ora, que procurem um mágico!  A vida é uma repetição neurótica!
-------Permita-me apresentar o Não-Lugar-Comum, por favor, madame.
-------Que nome comprido! Já me desagradou!


-------Prazer, Não-Lugar-Comum. Bela camisa. Brilha um pouco demais...Richard, por favor, traga-me óculos escuros. Suas calças são farrapos? Sim...sim...te escuto...é para contrastar com o glamour do brilho. E esse chapéu? Ah? O quê? Não tem explicação? Por quê? Porque o não lugar comum não pode explicar tudo...faz sentido. Achei a ideia do contraste entre brilho e pobreza lugar comum, na verdade. Não! Não se ofenda, por favor. Você é um ser original, Não-Lugar-Comum.


 --------Richard, não confiei nesse Não-Lugar-Comum. Sabe aquela dor vadia? Ele não a conheceu e nem adianta apresentar. Ele se recusa a vê-la.  Qual dor? Ora, Richard, aquela que vem no ônibus das cinco, no caminho para casa. A dor arroz com feijão.
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--------A dor vadia não vende livro, madame.
--------Mas é ela que dói, Richard. Olhe: eu já fui surrealista mais de uma vez. Foi interessante. Mas não o posso ser sempre. Mande entrar Napoleão, César, Louis XVI  e XIV, Freud e Marx. Foi excêntrico falar com eles. Mas, no final do dia, a dor é mesmo tola, inculta. A dor não estudou Sociologia. A dor não é politicamente correta. A dor não é poética. A dor só dói. E se dói, preciso escrever. Richard, eu até escrevi para Tatiana do fim do mundo. Era um lugar comum disfarçado. Sim. Eu pedi que ele usasse uma echarpe de purpurina sobre a camiseta branca para sair da monotonia. Ficou bom. E ele não reclamou. O lugar comum é bem solícito. Por isso, todos dele falam, aliás.
  ---------Mas seu lugar comum é chato.
---------Discordo. Ele fala francês e tem olhos azuis. Eu gosto muito dele. A camiseta branca pode ser uma metáfora. O jeans, também. Não é possível que eu precise de excentricidade para falar de simbolismos. Se os escancaro em algo surreal sempre,já não há metáfora. Além do mais, você não sabe quão difícil é convencer Napoleão a tomar um chá da tarde. Ah, houve também a menina com os porcos e as pérolas. Gastei uma fortuna para conseguir as pérolas. E os porcos não eram domesticados. E ainda me sujei de lama...credo! Não aguento essa vida todo dia. Já fui a mercado de desejos; já fui a loja de amor...preciso do Lugar-Comum para repousar. Ele me sorri com o cotidiano e não me cobra nada. Ele me dá segurança. Acho até que vou pedi-lo em casamento!
  .
 --------Madame, você é um caso perdido. Vai acabar escrevendo folhetins.
-------Richard, o único medo meu é escrever algo que não seja real. Sou tão fiel à verdade quanto uma jornalista. Com uma única diferença: a verdade é a minha. Não a do mundo.
-------Ah! Então, não é lugar comum...
-------Lugar-Comum, dê-me um beijo e mande Richard embora. Ele já me cansou.
-------Madame, seu ego está espremendo a poltrona de couro de 10.000 dólares.
------- Mande-a tirar. Meu ego precisa de espaço. E se ele se perder, ache-o, Richard! Da última vez, fiquei sem ele por dez dias, depois daquela crítica horrível sobre o meu livro.
--------Culpa do Lugar-Comum. Aliás, seu ego e eu brigamos. Não queria te contar para não te aborrecer.
--------Richard, meu ego é frágil. Faça as pazes já. Eu vou tentar convencê-lo a te perdoar, mas você sabe que ele tem mau gênio...Eu mesma o amo e o odeio, mas me disseram que é fatal despedi-lo. Então, é melhor aceitar os encargos trabalhistas dele. Temos que o aceitar. Agora,deixe-me a sós com o Lugar-Comum. Vamos ouvir uma música piegas com vinho. Somente ele me entende. Ah...arrume umas calças jeans para o Não-Lugar-Comum. Ninguém é obrigado a ver suas nádegas em meio aos trapos para provar-se que há contraste entre o lixo e o luxo. Ai, que lugar comum, aliás! Ah, mais uma coisa: convide a Gramática e a Ortografia para um jantar. Vou tentar reconciliar-me com elas depois daqueles incidentes. Pode deixar, Richard...o ego me alertou sobre minhas faltas.

terça-feira, 12 de julho de 2011

Salvatore Adamo - F Comme Femme ( traduzido )

F comme femme

      Na mesa do café do Jardim da Tulherias, um passarinho ousava petiscar as migalhas de quem lá se fartara antes dela.Quem ela era? Ela era uma femme. Ainda não fizera seu pedido ao garçom. O tempo esfriara em toda a França, e ela enrolara o cachecol junto ao pescoço, com graça. Ao fundo, a música de dentro do bistrô falava de "f comme femme."
       As folhas eram de outono, amarelas como seu sorriso ao garçom. Este limpara a mesa e expulsara o passarinho glutão, enquanto ouvia o pedido da mulher. Frágil e rapidamente, a pequena ave voou para o abrigo de alguma árvore. E a mulher  queria convidá-la a retornar e compartilhar as migalhas daquela refeição, mas não teve coragem. Ela deveria ter escolhido uma mesa dentro do recinto, pois não era primavera em Paris e as folhas são mortas-já dizia a outra canção. As flores? Ah! As flores vivem por pouco tempo. São frágeis. "Force" não pode ser o oposto de "fragilité", se ambas são tão conhecidas de seu ser. Mas há uma força que só a fragilidade pode conhecer. É a força de não sucumbir.
       Amar era prazer e martírio. O "f" de "femme" é de "fatalité". A anatomia não desmentiria a alma. Há um vazio que só uma mulher pode conhecer. Do vazio, uma esperança nasce. E, com ela, vive uma imensa melancolia. A esperança, um dia, se cansa e a melancolia grita "fatalidade", onde havia só a verdade. "F" de falso. A refeição estava gelada. O passarinho não voltara. O garçom errara o troco e não pedira desculpas. Ele lhe diria que sua dor de femme é encenação, e que flores são clichês. Ser mulher é o maior dos clichês.
      Um dia, bem velhinha, ao deixar este mundo, ela diria a Deus que a dor maior de todas fora a de ser mulher. Desperdício "d`être femme".Como o das flores belas e piegas que murcham e morrem numa semana. Um grande desperdício não ser colhida. Um grande desperdício ser colhida e sucumbir. Um grande desperdício não ser a "femme".

domingo, 3 de julho de 2011

Atestado

   Lindolfo guardava, ainda, a pasta de documentos que levara para o dia da admissão na repartição da subdivisão do Departamento da seção...enfim, aquele emprego estável, sonhado e cobiçado por todos na sua cidade de quinhentos habitantes. Na pasta, o papel amarelado atestava que Lindolfo havia nascido. Embaixo dele, o  atestado de ter concluído o Ensino Médio se mostrava um pouco rasgado, o que causara desgosto em Lindolfo. O atestado de que se casara estava intacto, todavia. O papel que atestava seu divórcio estava um pouco manchado. Ah! Sim! O atestado de cidadão do ano, daquele ano bom, antes que sua mulher se fosse! Que lindo papel! Com o brasão do Município!
   Lindolfo, que nunca bebera até os 42 anos, entornou um copo de pinga. Lembrou-se do atestado de doença que levara ao emprego naquele dia. O primeiro em vinte anos de bom serviço! Depois, foi o papel que atestou que ele havia sido demitido, que ele carregou para casa. Havia ainda o papel que atestava que a biópsia era mesmo de câncer.Atestado pesado aquele. Encurvara-lhe as costas de tanto peso.
   Lindolfo, em seus devaneios, pensou que deveria ter pedido à esposa um atestado de que ela o amava no dia em que se casaram.Ele poderia ter usado isso contra ela e tê-la obrigado a ficar. Mas qual cartório ,no mundo, emitiria isso? Deveria, quem sabe, ter requisitado atestado de que era "cabra macho" para aquele doutor que examinou aquela verruga estranha que lhe constrangera. O papel que dizia que ele fora o cidadão do ano de Miserópolis não atestava que ele havia existido. Será que alguém poderia dar-lhe um atestado de existência? Mas quem faria tal disparate--pensava Lindolfo-- enquanto roía as unhas. Mais um gole de pinga, e Lindolfo pensou que , por segurança burocrática de um bom ex-funcionário, convinha já pedir o atestado de óbito para arquivar naquela pastinha.Ele não poderia confiar o arquivamento de papel tão importante a outrem que não ele. A organização era essencial até para morrer. Mas qual médico atestaria morte num vivo?
     A campainha tocou. Eram Carlos e a esposa, vizinhos de Lindolfo. Carregavam um bolo de chocolate e um sorriso burguês. Deram parabéns a Lindolfo. Ele quase correu à pastinha para se certificar de sua data de nascimento. Conteve-se, todavia, e tentou ser simpático. O açúcar do bolo  trouxera um pouco de lucidez à mente embriagada. O atestado de existência era comestível, tinha uma vela que se derreteria, e acabaria em pouco tempo. A memória era cruel e  não registraria o atestado em seu banco de dados. Mas, por alguns instantes, Lindolfo achou que a burocracia da vida sorria-lhe mais uma vez e  até procurou uma máquina fotográfica, mas não a encontrou.