quarta-feira, 29 de junho de 2011

A PAZ

   Se a paz pudesse ter um endereço fora do coração humano, seria num Parque esquecido de Lisieux.
   Se a paz pudesse ser apreendida, aprisonada no tempo, eu aprisionaria aqueles instantes de solidão no banco daquele Parque, tornando-os eternos.
    Existem momentos, muito breves, em que o Céu toca a terra, em que Deus toca nossa pequenez. Para mim, ao menos, são breves. Para outros, não o são.

Refletindo com Santa Terezinha

"O Bom Deus me fez compreender que existem almas que sua misericórdia não se cansa de esperar..."

"O Pai quer que o ame, porque Ele me perdoou não muito, mas tudo".

"Não consigo crescer, devo suportar-me como sou, com todas as minhas imperfeições".

"Deus é mais terno que uma mãe".

Santa Terezinha do Menino Jesus


St Theresa of Lisieux (pic: AP)

segunda-feira, 27 de junho de 2011

Pour réfléchir

"Le sage doit rechercher le point de départ de tout désordre. Où?
 Tout commence par le manque d`amour."
 Mo-tzu
philosophe chinois

domingo, 26 de junho de 2011

Ida às compras

           Não sei o que me possuiu para que eu acompanhasse Helene naquele sinistro passeio. Ela me havia dito que queria ir às compras. Ingênua, não perguntei do quê. É isso mesmo , leitor: sempre pergunte compras do quê, porque você nem pode imaginar o que andam a vender por aí nestes dias. Bem, Helene me levou, com ar jovial e inocente, a uma sinistra loja úmida, escura e pequena, ao lado do cemitério. Eu já devia ter dito "não" lá mesmo, mas a curiosidade se fez passar por cordialidade e eu acompanhei minha amiga ao estabelecimento, que não tinha placa ou nome. Havia um balcão de mogno, atrás do qual prateleiras vazias ocupavam a parede até o teto. O comerciante, um senhor calvo, de olhos claros e ansiosos, esboçava um sorriso sádico que me arrepiou. Quase sugeri que ele trocasse de profissão e se tornasse coveiro, já que o cemitério estava tão próximo. Tive medo de que ele respondesse que aquele era mesmo seu segundo emprego de meio-período. Não que eu tema coveiros. Simpatizo com eles. Temeria sim aquele homem como coveiro, pois ele parecia capaz de enterrar os vivos. Para Helene, tudo era muito natural, no entanto. Ela logo cumprimentou, com muito respeito, o senhor, e indagou com naturalidade: ---"então, hoje chegou?" Aqueles olhos azuis cintilaram de alegria mórbida diante da decepção de minha amiga, depois que os lábios finos e arroxeados pronunciaram um afetado "não" como resposta à indagação. Helene transfigurou-se: irritada e amargurada, exclamou que não era possível aquela situação e que ela reclamaria a algum órgão superior. O homem, muito calmo, como se nada temesse, prosseguiu: ---"senhora, as prateleiras estão todas vazias, não é? Não tenho culpa se os amores não chegam aqui. Ninguém parece querer vendê-los por preço razoável. Reservei duas prateleiras para os amores não correspondidos, isto é, aqueles que são da ciência do ser amado, mas sem correspondência. Reservei quatro prateleiras para os amores não declarados e o resto da loja para os amores findos. Nada. Não consegui nada. Ninguém se desfaz deles. Ninguém os confia a mim". Eu pedi a Helene, um pouco gaga, que fôssemos embora. O homem sorriu-me, maliciosamente, e ofereceu-me água. Eu disse que não era necessário. Helene, no entanto, não concordava em desistir da aquisição: "---eu preciso de amor, seja ele de segunda mão, usado, de outra pessoa". Tentei argumentar racionalmente:"Helene, não é bem assim que funciona. Ou o amor é para você ou nunca será seu". O dono da loja irritou-se com minha argumentação. Perdeu o ar de superioridade irônico e gritou:--"sua moleca, não entende nada! Estou há anos neste ramo". Respondi à altura: "pois bem. Não aprendeste nada nesses anos todos, pois não tem um só item para vender. Por que não fecha essa droga de loja? E quanto a você, Helene, prefiro te esperar no cemitério a ficar aqui com esse charlatão". Os olhos azuis ficaram vermelhos de cólera, e eu me virei rapidamente,antes que apanhasse, saindo daquele inferno. Até que o cemitério não era tão desagradável se comparado à sinistra loja. Um pouco de paz, ao menos.
                Passado algum tempo, avistei Helene caminhando desolada, com um papel na mão. Era um endereço. Perguntei de onde, e ela repondeu, tristonha, que era do mercado de desejos. Eu propus que ela procurasse um Hospital para uma avaliação neurológica. Ela sorriu com a fraqueza de quem está absorta na própria tristeza e como se tivesse ouvido uma tolice de criança.
                 Foi a maldita curiosidade, travestida de sincera amizade, que me fez ir ao inusitado mercado. Helene transfigurou-se lá chegando. Animou-se muito com as barracas e o barulho febril da multidão que andava nos corredores. No corredor central, um relógio tinha um ponteiro que corria como o vento, de tal forma que uma hora se passava em menos de um segundo. O mal estar voltou a se apoderar de mim. Pedi a Helene que fôssemos embora. Tarde demais. Ela já estava entretida com a vendedora que lhe vendia o desejo de ser rica. Helene me dizia, em frenesi: " imagine só, minha amiga, se eu desejar ser rica, ocuparei-me de tudo quanto me traga dinheiro e ,tendo-o, viajarei, comprarei jóias, roupas, carros...tudo quanto quiser. Talvez até volte no senhor dos olhos azuis e compre sua loja". Não consegui ficar quieta: "Helene, você compraria uma loja vazia? Escute, Helene, esse desejo vai te cansar muito e frustrar. Ele nunca será saciado".
               Helene não pareceu convencida. Mas antes que me respondesse, um homem jovem e falante se aproximou de nós oferecendo o desejo de poder. Helene, mais uma vez, entusiasmou-se. O vendedor omitiu, com astúcia, que tal desejo traria o risco de Helene corromper sua moral. Eu tentei alertá-la, mas fui interrompida por uma senhora gorda, com uma verruga terrivelmente grande, no nariz, que oferecia o desejo de amar e ser amada. Eu tentei explicar a Helene que esse desejo ela já tinha. Em vão. Helene queria, a qualquer custo, comprar um desejo. Não suportando o absurdo, rendi-me a ele: "Escute, Helene, vou processar todos dessa droga de mercado. Isso aqui é venda casada. É vedado. Eles te vendem um desejo e empurram uma ilusão. Como assim qual ilusão? Você não percebeu? Se não percebeu, não tem jeito.Está cega. Isso é um mercado de ilusões." Helene, irada, disse que eu voltasse ao cemitério, pois combinava mais comigo. Aos berros, respondi que o cemitério era honesto, mas que eu não tinha intenção de retornar para lá. Cansada, desisti de Helene e saí do mercado infernal. Na rua, as pessoas andavam como se ignorassem a estapafúrdia encenação que ocorria a alguns metros delas. O relógio da Catedral tinha os ponteiros normais. Uma hora era uma hora, finalmente. Sentei-me na calçada. Ouvi os sinos. Helene saiu abatida e calada do mercado e sentou-se ao meu lado. Disse, em tom de desabafo, sem olhar nos meus olhos: "ofereceram-me o desejo de comer apenas quitutes deliciosos a todo o tempo; ofereceram também o desejo de beber vinho a todo instante. Perguntei se o médico viria como acessório no caso dessa compra. Eles me falaram que não.Ofereceram-me o desejo de ser a mais bela mulher, mas eu teria que comprar o de ser muito rica junto" Comecei a roer as unhas. Não sabia mais o que falar. Na esquina, um homem muito magro e pálido segurava uma caixa de isopor de sorvetes. Ele nos olhava sem nada falar. Acho que nos olhava sem ver. Helene perguntou-me se poderia pegar um desejo emprestado de mim. Qualquer um. Ela prometeu devolver-me. Perguntou se eu tinha o desejo de uma vida acadêmica de sucesso ou ,quem sabe, de fama. Aceitaria qualquer um. Sorri-lhe, já sem forças de lutar contra aquilo que a movia. Falei simplesmente: "Quando criança, você gostava de sorvete de pistache. Vamos ver se tem na esquina?" Helene riu, com condescendência, como se eu tivesse falado uma asneira simpática, mas seguiu-me até o sorveteiro. Terminamos o dia  tomando sorvete na praça em frente à Catedral. E a expressão"ir às compras" nunca mais me foi a mesma.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

Midnight in Paris---reflexões

          Em "Midnight in Paris", Woody Allen parece sustentar a tese de que não existe a "idade de ouro", pois cada ser humano idealizaria, fantasiosamente,  as décadas que lhe precederam, julgando terem sido elas melhores do que o presente. No entanto, o final feliz e ingênuo do filme surpreendeu-me: é como se ele contrariasse o restante da trama. Afinal, se não existe a "golden age", como pode haver uma "cidade de ouro", mítica, pela qual tudo se larga e em que se cruza com uma mulher, igualmente idealizada, numa ponte?
          No filme, destrói-se o mito do culto ao passado, mas não do culto a Paris ou do amor romântico.
          Ça va...não discordo de Woody Allen (aliás, essa última frase soa megalomaníaca). A verdade é que, talvez, não possamos viver sem mitos. Ou que tenhamos que nos desfazer deles muito lentamente, em doses homeopáticas, conforme a vida nos dê algo que os susbstitua: sejam novos mitos ou realidade. Ainda assim, quem saberia dizer onde termina um mito e começa uma realidade, se quem define o real são os próprios olhos que mitificam o mundo?

sexta-feira, 10 de junho de 2011

MEDO

     Eu tenho medo da "força da grana que ergue e destrói coisas belas" (C. Veloso). Não só coisas; pessoas, também. Eu tenho medo de pensar que essa grana é o maestro da sinfonia a que chamamos de vida, e segundo a qual, dançamos constantemente, sem pensar em quem ou no quê conduz a orquestração. Tenho medo, muito medo.
       Quando eu fecho os olhos, vejo uma enxurrada muito forte de lodo, que arrasta a tudo e todos. Alguns tentam se segurar aqui e acolá. Não sei nem por quanto tempo conseguirão. Outros caminham desatentos à força destruidora que lhes surpreende e leva embora. A lama também é feita de água. E a água é vital. Desde que limpa...
        Ah! O ego...esse ego insaciável, que diz: "dê- me poder; dê-me dinheiro para que eu valide minha existência". E as outras formas de validação? Não são muito melhores:"Dê-me aplausos; dê-me elogios, reconhecimento". Sim, o ego é um senhorio exigente e cruel que, na busca por legitimar o existir, destrói a  essência da própria existência.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Viva la vida

----Ana, chame o ilustre convidado, por favor.
-----Ilustre? Sei não, senhora. Ele usa saias.
-----Ora, Ana, somos inglesas. Estamos habituadas a escoceses.
-----Este homem é diferente, senhora. Ele usa uma armadura de ferro, ou bronze...sei lá.
------Pois bem. Que entre.
ALGUM TEMPO DEPOIS...
------  Compreendo... compreendo...sim, sim. É claro...Ana, pegue meu dicionário de latim no quarto. Perdoe-me pela interrupção. Acontece que não entendi sua última frase. Meu latim anda fraco. Grego? Não, não falo grego. Não se aborreça. Também acho a filosofia uma besteira, sem aplicação alguma. Claro. Claro. Guerras para dominar o mundo. Você é um homem prático. Pra que esmurrar a mesa? Concordo em dominar o mundo. Bom projeto de vida. Deve dar sentido à existência. Não se aborreça.  Meu povo? É...nossa língua não deriva do latim. É...vocês ocuparão parte de nossas terras. Fique calmo. Quem pode querer todo o Reino Unido? Só a Rainha. Não. Não Cleópatra. Elisabeth. Como? Está indignado porque não conhece a Rainha? Ela está sob seu domínio? Calma. Para que aborrecer-se com uma história tão chata? Ela é uma rainha sem poderes. Um tédio tremendo ser rainha. Como isso é possível? O fim de seu Império? Não. Quem falou em fim? Imagine só.....Ana, por favor, a campainha está tocando.
ALGUM TEMPO DEPOIS...
---------Muito bonita a relação sua com seu tataraneto. Linda a sinceridade com que você fala que você é o sol e ele, nada. Ana, dê mais bolachas a Louis. Como qual? Ao que está requerendo bolachas. Acho formidável essa idéia de o Estado ser você. Deve ser bom ao ego. Você não vai precisar de analistas. Ah, não sabe o que são analistas? Coisa de austríacos. Maria Teresa? Acho-a magnífica. Mas não recomendo a filha dela como Rainha. Por quê? Não sei...uma certa idéia fixa por brioches. Seu tataraneto ama fechaduras, não? Ele está, há trinta minutos, a desmontar a fechadura de minha porta. Chaveiro? Ah, ele preferiria ser chaveiro a rei. Por que olho tanto o pescoço de seu tataraneto? Não sei. Perdoe-me a indiscrição. É que é um pescoço tão nobre, alvo e belo, como uma coluna de mármore. É importante cuidar do pescoço, sabe? É uma parte muito útil do corpo, que negligenciamos. Claro...são uns pobres coitados esses comerciantes. E o povo? Por que não se contentam com a vista magnífica de Versalhes, não é? Ana, mais chá, por favor. Ah, não custa ter cuidado com Robespierre.
----------Você está bem, minha senhora? Está pálida. Escute, senhora, não se meta nisso. Por acaso, é contra liberdade, igualdade, fraternidade?
---------  Estou ótima. E não sou contra nada. É que não gosto de cabeças rolando. Mas, você tem razão, Ana. A austríaca será ótima esposa, Louis! Uma virtude só! Case-se com ela! Mais uísque ao gentil Imperador de saias, por favor, Ana. Ai, a campainha. Quem será?
MAIS UM TEMPO SE PASSOU
----------Não. Não é bom que discutam. Os dois são dignos de governarem a França. Aliás, você quer ter um Império sobre o mundo. Calma, há mundo para todos vocês...Não, não vá, no vade---ai meu latim deplorável!! E, você, perdoe Ana, meu bom homem. É claro que o senhor não é muito baixo para governar o mundo. Tolices de Ana. Essa mão sob o paletó é muito charmosa, alíás. Seu Código Civil será um sucesso internacional! Um estouro! Seu Império? É uma longa história...para que se aborrecer com histórias tão longas? É um homem tão ocupado! Dê minhas considerações à Josefina. Louis, calma. Igualdade não é bem assim. Como assim você não é igual a mim, Ana? Mas eu te pago. E você é livre. Você é igual a mim, Ana. Se eu sou igual a você, Louis? Ai, que pergunta difícil. Ninguém é igual a ninguém, Louis. Ana, uísque para mim, por favor. Concordo. Aquele João sem terras atrapalhou tudo, né? Mas a Rainha tem muitas terras...
ALGUM TEMPO DEPOIS...
------Espera um pouco. Mais valia é o quê? Meu pai se aproveita do trabalho dos operários?Mas eu adoro o Blair. Ausência de propriedade privada? Tudo do Estado?Mas e minha casa? Olha...essa história vai acabar meio mal em alguns cantos, meu senhor. Você precisa conhecer uns russos. Um momento, por favor. O que, Ana? Você vai embora? Eu te exploro? Como assim? Você é comunista agora? Não. Não quero Stalin nem Lênin aqui! O italiano bigodudo? Não! Credo, Ana...esse outro, então, nem pensar. Tranca tudo.Quem mais? Freud? Está atrasado, mas pode entrar.
ALGUM TEMPO DEPOIS...
-------É. O falo é tudo. Entendo. Édipo? Não. Os mitos não vieram hoje. Entendo. O cetro é o falo...Acho que você precisava falar com alguns desses caras. Como? Isso não é da sua conta! Isso é da minha intimidade! Ora, bolas! Não...não tenho paralisias súbitas. Não, não desmaio. Ora, o que faço com meu noivo é problema meu. Ana, você está indo embora mesmo? Com quem ? Com o cubano, que era amigo daquele médico bonito? Não, não vá, Ana. Robert Redford não está em Havana. Aquilo era só filme. Fique. Preciso de você. Você nem fuma charutos. O quê? Vai me processar por preconceito? Não! Eu amo Cuba! Guantanamera...lá lá...Viu? Até canto em espanhol! Ai, a campainha de novo!
ALGUM TEMPO DEPOIS...
--------É. Vocês trocaram as armaduras por ternos. Quem vão bombardear agora? Era mais o seu antecessor que gostava disso. Entendo.  Petróleo, né? Equilíbrio no Oriente Médio? Não? Ah, democracia, liberdade, igualdade. Calma, Louis. Deixe-o falar. Merci. Continue, por favor. Claro. Defender sempre a democracia. E o nosso imperialismo, né? Sem chances pra Brasil, China e India, né? Entendo. Reeleição é dureza. No dreams at all? Você é um homem prático. Compreendo. Não, Freud, falei de sonhos em outro sentido. Não. Não precisa interpretar tudo. Claro. O inconsciente rege tudo. Acho melhor cada um servir seu próprio chá. Ana se foi depois do discurso do alemão.
ALGUM TEMPO DEPOIS...
---------Querem saber? Estou cansada. Acho que cada um podia lavar sua louça, e ir. Chega! Não quero mais saber de seus planos! Todos fora! Não. Não entendo nada de política! Estou cansada. Não. Não me chame de alienada, senhor!Você está me xingando em alemão? O quê?! Ei, você, não sou histérica, não! Pode ir embora com os políticos e o sociólogo, doutor. Plebéia? Bem , isso sou. Burguesa? Também. Mas basta!! Saiam todos! Só Louis pode ficar. O tataraneto.
DEPOIS QUE QUASE TODOS SE FORAM:
-------- Diga-me, Louis... fale-me mais sobre suas fechaduras e chaves. Gostaria de lhe ouvir. Acho que desmontar e montar fechaduras é só o que importa no mundo todo...

Coldplay viva la vida [Official Video]