sexta-feira, 3 de junho de 2011

Viva la vida

----Ana, chame o ilustre convidado, por favor.
-----Ilustre? Sei não, senhora. Ele usa saias.
-----Ora, Ana, somos inglesas. Estamos habituadas a escoceses.
-----Este homem é diferente, senhora. Ele usa uma armadura de ferro, ou bronze...sei lá.
------Pois bem. Que entre.
ALGUM TEMPO DEPOIS...
------  Compreendo... compreendo...sim, sim. É claro...Ana, pegue meu dicionário de latim no quarto. Perdoe-me pela interrupção. Acontece que não entendi sua última frase. Meu latim anda fraco. Grego? Não, não falo grego. Não se aborreça. Também acho a filosofia uma besteira, sem aplicação alguma. Claro. Claro. Guerras para dominar o mundo. Você é um homem prático. Pra que esmurrar a mesa? Concordo em dominar o mundo. Bom projeto de vida. Deve dar sentido à existência. Não se aborreça.  Meu povo? É...nossa língua não deriva do latim. É...vocês ocuparão parte de nossas terras. Fique calmo. Quem pode querer todo o Reino Unido? Só a Rainha. Não. Não Cleópatra. Elisabeth. Como? Está indignado porque não conhece a Rainha? Ela está sob seu domínio? Calma. Para que aborrecer-se com uma história tão chata? Ela é uma rainha sem poderes. Um tédio tremendo ser rainha. Como isso é possível? O fim de seu Império? Não. Quem falou em fim? Imagine só.....Ana, por favor, a campainha está tocando.
ALGUM TEMPO DEPOIS...
---------Muito bonita a relação sua com seu tataraneto. Linda a sinceridade com que você fala que você é o sol e ele, nada. Ana, dê mais bolachas a Louis. Como qual? Ao que está requerendo bolachas. Acho formidável essa idéia de o Estado ser você. Deve ser bom ao ego. Você não vai precisar de analistas. Ah, não sabe o que são analistas? Coisa de austríacos. Maria Teresa? Acho-a magnífica. Mas não recomendo a filha dela como Rainha. Por quê? Não sei...uma certa idéia fixa por brioches. Seu tataraneto ama fechaduras, não? Ele está, há trinta minutos, a desmontar a fechadura de minha porta. Chaveiro? Ah, ele preferiria ser chaveiro a rei. Por que olho tanto o pescoço de seu tataraneto? Não sei. Perdoe-me a indiscrição. É que é um pescoço tão nobre, alvo e belo, como uma coluna de mármore. É importante cuidar do pescoço, sabe? É uma parte muito útil do corpo, que negligenciamos. Claro...são uns pobres coitados esses comerciantes. E o povo? Por que não se contentam com a vista magnífica de Versalhes, não é? Ana, mais chá, por favor. Ah, não custa ter cuidado com Robespierre.
----------Você está bem, minha senhora? Está pálida. Escute, senhora, não se meta nisso. Por acaso, é contra liberdade, igualdade, fraternidade?
---------  Estou ótima. E não sou contra nada. É que não gosto de cabeças rolando. Mas, você tem razão, Ana. A austríaca será ótima esposa, Louis! Uma virtude só! Case-se com ela! Mais uísque ao gentil Imperador de saias, por favor, Ana. Ai, a campainha. Quem será?
MAIS UM TEMPO SE PASSOU
----------Não. Não é bom que discutam. Os dois são dignos de governarem a França. Aliás, você quer ter um Império sobre o mundo. Calma, há mundo para todos vocês...Não, não vá, no vade---ai meu latim deplorável!! E, você, perdoe Ana, meu bom homem. É claro que o senhor não é muito baixo para governar o mundo. Tolices de Ana. Essa mão sob o paletó é muito charmosa, alíás. Seu Código Civil será um sucesso internacional! Um estouro! Seu Império? É uma longa história...para que se aborrecer com histórias tão longas? É um homem tão ocupado! Dê minhas considerações à Josefina. Louis, calma. Igualdade não é bem assim. Como assim você não é igual a mim, Ana? Mas eu te pago. E você é livre. Você é igual a mim, Ana. Se eu sou igual a você, Louis? Ai, que pergunta difícil. Ninguém é igual a ninguém, Louis. Ana, uísque para mim, por favor. Concordo. Aquele João sem terras atrapalhou tudo, né? Mas a Rainha tem muitas terras...
ALGUM TEMPO DEPOIS...
------Espera um pouco. Mais valia é o quê? Meu pai se aproveita do trabalho dos operários?Mas eu adoro o Blair. Ausência de propriedade privada? Tudo do Estado?Mas e minha casa? Olha...essa história vai acabar meio mal em alguns cantos, meu senhor. Você precisa conhecer uns russos. Um momento, por favor. O que, Ana? Você vai embora? Eu te exploro? Como assim? Você é comunista agora? Não. Não quero Stalin nem Lênin aqui! O italiano bigodudo? Não! Credo, Ana...esse outro, então, nem pensar. Tranca tudo.Quem mais? Freud? Está atrasado, mas pode entrar.
ALGUM TEMPO DEPOIS...
-------É. O falo é tudo. Entendo. Édipo? Não. Os mitos não vieram hoje. Entendo. O cetro é o falo...Acho que você precisava falar com alguns desses caras. Como? Isso não é da sua conta! Isso é da minha intimidade! Ora, bolas! Não...não tenho paralisias súbitas. Não, não desmaio. Ora, o que faço com meu noivo é problema meu. Ana, você está indo embora mesmo? Com quem ? Com o cubano, que era amigo daquele médico bonito? Não, não vá, Ana. Robert Redford não está em Havana. Aquilo era só filme. Fique. Preciso de você. Você nem fuma charutos. O quê? Vai me processar por preconceito? Não! Eu amo Cuba! Guantanamera...lá lá...Viu? Até canto em espanhol! Ai, a campainha de novo!
ALGUM TEMPO DEPOIS...
--------É. Vocês trocaram as armaduras por ternos. Quem vão bombardear agora? Era mais o seu antecessor que gostava disso. Entendo.  Petróleo, né? Equilíbrio no Oriente Médio? Não? Ah, democracia, liberdade, igualdade. Calma, Louis. Deixe-o falar. Merci. Continue, por favor. Claro. Defender sempre a democracia. E o nosso imperialismo, né? Sem chances pra Brasil, China e India, né? Entendo. Reeleição é dureza. No dreams at all? Você é um homem prático. Compreendo. Não, Freud, falei de sonhos em outro sentido. Não. Não precisa interpretar tudo. Claro. O inconsciente rege tudo. Acho melhor cada um servir seu próprio chá. Ana se foi depois do discurso do alemão.
ALGUM TEMPO DEPOIS...
---------Querem saber? Estou cansada. Acho que cada um podia lavar sua louça, e ir. Chega! Não quero mais saber de seus planos! Todos fora! Não. Não entendo nada de política! Estou cansada. Não. Não me chame de alienada, senhor!Você está me xingando em alemão? O quê?! Ei, você, não sou histérica, não! Pode ir embora com os políticos e o sociólogo, doutor. Plebéia? Bem , isso sou. Burguesa? Também. Mas basta!! Saiam todos! Só Louis pode ficar. O tataraneto.
DEPOIS QUE QUASE TODOS SE FORAM:
-------- Diga-me, Louis... fale-me mais sobre suas fechaduras e chaves. Gostaria de lhe ouvir. Acho que desmontar e montar fechaduras é só o que importa no mundo todo...

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