Não sei o que me possuiu para que eu acompanhasse Helene naquele sinistro passeio. Ela me havia dito que queria ir às compras. Ingênua, não perguntei do quê. É isso mesmo , leitor: sempre pergunte compras do quê, porque você nem pode imaginar o que andam a vender por aí nestes dias. Bem, Helene me levou, com ar jovial e inocente, a uma sinistra loja úmida, escura e pequena, ao lado do cemitério. Eu já devia ter dito "não" lá mesmo, mas a curiosidade se fez passar por cordialidade e eu acompanhei minha amiga ao estabelecimento, que não tinha placa ou nome. Havia um balcão de mogno, atrás do qual prateleiras vazias ocupavam a parede até o teto. O comerciante, um senhor calvo, de olhos claros e ansiosos, esboçava um sorriso sádico que me arrepiou. Quase sugeri que ele trocasse de profissão e se tornasse coveiro, já que o cemitério estava tão próximo. Tive medo de que ele respondesse que aquele era mesmo seu segundo emprego de meio-período. Não que eu tema coveiros. Simpatizo com eles. Temeria sim aquele homem como coveiro, pois ele parecia capaz de enterrar os vivos. Para Helene, tudo era muito natural, no entanto. Ela logo cumprimentou, com muito respeito, o senhor, e indagou com naturalidade: ---"então, hoje chegou?" Aqueles olhos azuis cintilaram de alegria mórbida diante da decepção de minha amiga, depois que os lábios finos e arroxeados pronunciaram um afetado "não" como resposta à indagação. Helene transfigurou-se: irritada e amargurada, exclamou que não era possível aquela situação e que ela reclamaria a algum órgão superior. O homem, muito calmo, como se nada temesse, prosseguiu: ---"senhora, as prateleiras estão todas vazias, não é? Não tenho culpa se os amores não chegam aqui. Ninguém parece querer vendê-los por preço razoável. Reservei duas prateleiras para os amores não correspondidos, isto é, aqueles que são da ciência do ser amado, mas sem correspondência. Reservei quatro prateleiras para os amores não declarados e o resto da loja para os amores findos. Nada. Não consegui nada. Ninguém se desfaz deles. Ninguém os confia a mim". Eu pedi a Helene, um pouco gaga, que fôssemos embora. O homem sorriu-me, maliciosamente, e ofereceu-me água. Eu disse que não era necessário. Helene, no entanto, não concordava em desistir da aquisição: "---eu preciso de amor, seja ele de segunda mão, usado, de outra pessoa". Tentei argumentar racionalmente:"Helene, não é bem assim que funciona. Ou o amor é para você ou nunca será seu". O dono da loja irritou-se com minha argumentação. Perdeu o ar de superioridade irônico e gritou:--"sua moleca, não entende nada! Estou há anos neste ramo". Respondi à altura: "pois bem. Não aprendeste nada nesses anos todos, pois não tem um só item para vender. Por que não fecha essa droga de loja? E quanto a você, Helene, prefiro te esperar no cemitério a ficar aqui com esse charlatão". Os olhos azuis ficaram vermelhos de cólera, e eu me virei rapidamente,antes que apanhasse, saindo daquele inferno. Até que o cemitério não era tão desagradável se comparado à sinistra loja. Um pouco de paz, ao menos.
Passado algum tempo, avistei Helene caminhando desolada, com um papel na mão. Era um endereço. Perguntei de onde, e ela repondeu, tristonha, que era do mercado de desejos. Eu propus que ela procurasse um Hospital para uma avaliação neurológica. Ela sorriu com a fraqueza de quem está absorta na própria tristeza e como se tivesse ouvido uma tolice de criança.
Foi a maldita curiosidade, travestida de sincera amizade, que me fez ir ao inusitado mercado. Helene transfigurou-se lá chegando. Animou-se muito com as barracas e o barulho febril da multidão que andava nos corredores. No corredor central, um relógio tinha um ponteiro que corria como o vento, de tal forma que uma hora se passava em menos de um segundo. O mal estar voltou a se apoderar de mim. Pedi a Helene que fôssemos embora. Tarde demais. Ela já estava entretida com a vendedora que lhe vendia o desejo de ser rica. Helene me dizia, em frenesi: " imagine só, minha amiga, se eu desejar ser rica, ocuparei-me de tudo quanto me traga dinheiro e ,tendo-o, viajarei, comprarei jóias, roupas, carros...tudo quanto quiser. Talvez até volte no senhor dos olhos azuis e compre sua loja". Não consegui ficar quieta: "Helene, você compraria uma loja vazia? Escute, Helene, esse desejo vai te cansar muito e frustrar. Ele nunca será saciado".
Helene não pareceu convencida. Mas antes que me respondesse, um homem jovem e falante se aproximou de nós oferecendo o desejo de poder. Helene, mais uma vez, entusiasmou-se. O vendedor omitiu, com astúcia, que tal desejo traria o risco de Helene corromper sua moral. Eu tentei alertá-la, mas fui interrompida por uma senhora gorda, com uma verruga terrivelmente grande, no nariz, que oferecia o desejo de amar e ser amada. Eu tentei explicar a Helene que esse desejo ela já tinha. Em vão. Helene queria, a qualquer custo, comprar um desejo. Não suportando o absurdo, rendi-me a ele: "Escute, Helene, vou processar todos dessa droga de mercado. Isso aqui é venda casada. É vedado. Eles te vendem um desejo e empurram uma ilusão. Como assim qual ilusão? Você não percebeu? Se não percebeu, não tem jeito.Está cega. Isso é um mercado de ilusões." Helene, irada, disse que eu voltasse ao cemitério, pois combinava mais comigo. Aos berros, respondi que o cemitério era honesto, mas que eu não tinha intenção de retornar para lá. Cansada, desisti de Helene e saí do mercado infernal. Na rua, as pessoas andavam como se ignorassem a estapafúrdia encenação que ocorria a alguns metros delas. O relógio da Catedral tinha os ponteiros normais. Uma hora era uma hora, finalmente. Sentei-me na calçada. Ouvi os sinos. Helene saiu abatida e calada do mercado e sentou-se ao meu lado. Disse, em tom de desabafo, sem olhar nos meus olhos: "ofereceram-me o desejo de comer apenas quitutes deliciosos a todo o tempo; ofereceram também o desejo de beber vinho a todo instante. Perguntei se o médico viria como acessório no caso dessa compra. Eles me falaram que não.Ofereceram-me o desejo de ser a mais bela mulher, mas eu teria que comprar o de ser muito rica junto" Comecei a roer as unhas. Não sabia mais o que falar. Na esquina, um homem muito magro e pálido segurava uma caixa de isopor de sorvetes. Ele nos olhava sem nada falar. Acho que nos olhava sem ver. Helene perguntou-me se poderia pegar um desejo emprestado de mim. Qualquer um. Ela prometeu devolver-me. Perguntou se eu tinha o desejo de uma vida acadêmica de sucesso ou ,quem sabe, de fama. Aceitaria qualquer um. Sorri-lhe, já sem forças de lutar contra aquilo que a movia. Falei simplesmente: "Quando criança, você gostava de sorvete de pistache. Vamos ver se tem na esquina?" Helene riu, com condescendência, como se eu tivesse falado uma asneira simpática, mas seguiu-me até o sorveteiro. Terminamos o dia tomando sorvete na praça em frente à Catedral. E a expressão"ir às compras" nunca mais me foi a mesma.
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