Ramón dedicou mais de vinte anos de sua vida no firme propósito de morrer. Luta obstinada contra o viver. Não percebeu ele que, durante a batalha ferrenha, a vida foi-lhe devolvida: pôde amar e ser amado, cuidar e ser cuidado, pensar e escrever, ter ideias e criar, mais do que muitos dos que andam e correm jamais o farão. Mas ele estava cego, obstinado por provar que a palavra final era a dele. Não viu que a vida estava ali, rondando-o, convidando-o. Não viu, nem sequer, que enquanto perseguia a morte, ele experimentava a vida com certo prazer e que até já aceitava muitos de seus convites. Mas era preciso vingar-se do destino, de Deus. Era preciso dizer que não era aceitável que um infortúnio ou vontade de um Ser superior lhe confinassem à cama. A última palavra tinha que ser a dele. Nós não escolhemos o dia de nascer. Mas ele precisava escolher o de morrer. Era isso que ele queria no dia trágico que mudou o rumo de sua história? Havia sido o pulo na água uma tentativa de suicídio? Não sei.
Inconformado, ele fez da morte seu ideal de vida, a razão do existir, a ideologia a ser defendida. Não viu que as razões do existir eram outras, muitas e pequenas; eram banais deveras e, ao mesmo tempo, sagradas.Sim, o viver escondia-se em cada sorriso, em cada carinho, em cada ajuda que lhe prestavam e que ele prestava. A vida o cercava amorosamente, de forma delicada. Não percebia ele que, na imobilidade de seu leito, era objeto e sujeito do milagroso amor que une famílias, amigos, amantes. Milagre que muitos que se locomovem não experimentam. Mas seu compromisso era com a morte, pois era necessário ser o senhor do destino.
Todos nós erramos e erraremos nesta vida, inexoravelmente, por não sabermos identificar em que momentos devemos interferir no curso da vida e em que momentos devemos aceitá-lo.Ou melhor, nunca saberemos , exatamente, como aceitá-lo, modificando-o suavemente conforme ele mesmo permita, através de "portas", "brechas". Nada nunca é uma prisão deveras. Mas é um dos atos mais difíceis para o ser humano negociar com a vida, reinterpretá-la, reinventá-la, ser-lhe flexível, sem ser inerte. Ser sujeito ativo da existência dolorosa ,sem com ela romper, é um desafio para todos os que sofrem.
Não tenho a audácia de antever como agiria em situações que não vivi jamais. Por isso, tenho empatia diante do que, hoje, chamo de "erro" cometido por Ramón na eutanásia. Poderia ser meu erro, sem dúvida. Mas nada me impede de idealizar,pretensiosamente, um eu que pudesse optar pela vida numa situação semelhante.
Estranhamente, o filme que pretendia convencer-me da validade da eutanásia ativa num caso de tetraplegia, fez-me ver quão grande é a capacidade do ser humano de se adaptar e encontrar vida onde imaginaríamos só haver dor e sofrimento. Ramón VIVEU naquele leito de seu quarto por mais de duas décadas. Sua vida foi digna. Mais digna do que a de muitos que se locomovem. E, por isso, ele merece profunda admiração e respeito.
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