sábado, 15 de janeiro de 2011

O Haiti é aqui.

     A água separou a senhora do cachorro. A imagem correu o mundo.A mulher tentara salvá-lo. Falaram-lhe que não amarrasse a corda de salvamento nele também. Só nela. Ele era supérfluo. As tragédias têm esse poder de transformar o essencial em dispensável e de profanar o sagrado. Um homem fala que perdeu filhos, esposa, nora. Ele está em choque. Sua voz não tem modulação. Eu já o imagino chorando de fronte a um psiquiatra, no Centro de Saúde, daqui a alguns meses. A mulher grita em frente ao IML. Era mesmo o corpo da irmã! E agora? O psiquiatra que imagino vai amaldiçoar a indústria farmacêutica que, numa imensa incompetência, não inventou o remédio para quem perde a vida antes de morrer. Nicho não explorado do capitalismo... Alguém precisa alertar os laboratórios.Seriam rios de dinheiro. Com a força da água que levou o cachorrinho. No Centro de Saúde, haverá alguns tipos de antidepressivo. O psiquiatra, se não for ateu, vai rezar para que um deles funcione. No livro em que ele estudou, há muitas outras opções de medicação, mas o Estado não as compra.Então, é melhor que o paciente melhore com o que há no SUS. O psicólogo vai iniciar a terapia . Mas, e se sua agenda estiver lotada? Ah, nesse Centro de Saúde, não tem psiquiatra? E agora? Por que será? E o salário dos deputados? Como ficou? Que fim deu? Ah, não estou escrevendo coisa com coisa. Estou confusa.Perdão. Escrevo sem nexo. Por vaidade, gabaritei uma questão de prova em que redigi que o plano diretor urbano é obrigatório para cidades com mais de 20.000 habitantes. Tirei dez! Alguém tirou zero quando essa mesma questão caiu na prova da vida. Ah! São ocupações irregulares, ilícitas...mas, por que alguém mora num lugar irregularmente? E as mansões que desabaram? Dá para processar a Prefeitura e reaver os IPTUs? E dá para reaver as vidas? Em que Comarca se entra com esse processo para reaver as vidas?Vidas? Estou confusa. Já me perdi. Supérfluo, essencial, supérfluo, essencial...A ira me confunde a cabeça. Aliás, me falaram que tudo era fruto da ira de Deus. Não. A ira é minha mesmo contra os políticos. Força maior? Motivo de força maior? Quando a força maior se repete na mesma época do ano, no mesmo local, há anos, a única coisa sobre a qual ela é maior é a inércia de quem faz a gestão do município, do estado, do país. Odeio apontar dedos. Mas, hoje, não vejo outra opção.Alguém importante disse que estadistas pensam nas próximas gerações e políticos, nas próximas eleições. E quem governa sem pensar em nenhum dos dois? Não me falaram como se chama. Estou escrevendo sem começo, meio e fim. Ira? Meu Deus, me perdoe pela ira. Quem falou que a ira era Sua, se esqueceu de que Suas mãos são chagadas e Se colocam sobre as frontes dos filhos para trazer consolo. Colocoram cadáveres na Sua casa.  Por que tanto susto? O Dono da casa recebe as almas. Uma alma é essencial. Quantas vezes não fui à Sua casa com a alma distante de Vós? A alma que não Vos ama é que profana Vossa casa. Não um corpo, que criastes, mesmo que esteja sem o sopro da vida. Na verdade, a alma que não Vos ama profana a si mesma. Não escrevo com nexo, né? O nexo é supérfluo nas tragédias. Diante do rosto que chora, as ideias minguam. Caetano cantou que o Havaí fosse aqui. Sinto muito pelo menino do Rio. O Haiti é aqui. Sempre foi. E eu finjo que não é assim, e tiro zero na prova da vida.

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