domingo, 9 de janeiro de 2011

Qual é a música?

Carlos estava no ponto de ônibus, sobre o banco de cimento, em pé, para que a forte chuva não o atingisse, com suas rajadas laterais provocadas pelo vento . Abrigava-se sob a cobertura de plástico. Pingos gelados salpicavam-lhe o rosto e o corpo mesmo assim. Nas mãos, a pasta azul, também de plástico, continha os recibos das contas pagas e as cobranças daquelas para as quais o saldo da conta fora insuficiente. Agora, a noite caíra e alguns poucos carros passavam fazendo jatos d`água invadirem, com violência, a calçada.
A chuva sobre o plástico que o protegia fazia um barulho irritante e constante. Ainda assim, uma música repetia-se na mente de Carlos e seu pensamento se contorcia para descobrir que melodia era aquela. Seria de uma novela antiga? Seria de algum filme dos tempos de garoto? Sim! Era de um filme! Mas, qual? Sua cabeça calva estava gelada e molhada. Ele verificou se a água não entrava na pasta. Não. Os papéis estavam a salvo. Por que o ônibus demorava tanto? Ainda choveria quando ele tivesse que pegar o segundo, rumo à sua casa. Rita estaria adormecida. Se não estivesse, reclamaria das contas não pagas, da falta de saldo, da falta de emprego, da falta de reboco onde pingava goteira, da falta de amor, da falta de virilidade, da falta, da imensa falta. Carlos fizera um ano de francês na adolescência. A música era francesa? Não, não era. E inundava-lhe de melancolia. Anunciava-lhe uma perda terrível, irreparável, uma falta, dessas gigantescas, que a tudo ocupam e de tudo se apossam. Falta espaçosa aquela. Como seria bom ter um carro! Rita sempre falava isso num tom que o humilhava por não possuir um. Era tão bom ir ao cinema com ela quando eram jovens. O frenesi do toque da mão juvenil! A mão gelada apalpou a pasta molhada mais uma vez. Os papéis estavam salvos. Bardot, Cardinale, Delon, Audrey Hepburn. Era a música de Bonequinha de Luxo? Não, não era. Julie Christie. Era o Tema de Lara? Não, também não. Girassóis da Rússia?Mas que droga! Não! O pensamento teimava em não achar o nome da melodia, o que era preocupante porque melancolia não nomeada é como fera bestial sem dono que a adestre. Muito perigoso. Ainda mais naquela chuva. Um carro passou em velocidade mais alta do que a dos demais e o fim do jato d`água resvalou no peito de Carlos. Ele se lembrou! Era a música do “Verão de 42”! Vira o filme numa tarde chuvosa depois de um exame final do muito promissor curso de datilografia. O ônibus chegou. Pareceu, um dia, que a vida seria filme, com moça bonita apaixonada, com trilha sonora. A vida não foi filme. A vida não imitou filme, nem dos tristes. Até a tristeza da vida era sem graça, sem música melancólica orquestrada. Era só tristeza vira-lata, apressada, que assalta a gente entre o almoço corrido e o ponto de ônibus. Tristeza sem música era mais triste. Ninguém lhe avisara. Amor fora do Cinema desbotava. Ninguém lhe prevenira. Carlos tropeçou  e espatifou-se na calçada. A pasta arremessada atingiu a poça d`água. Ele ergueu a cabeça e viu que os papéis haviam sido molhados. Os recibos e contas estariam encharcados e,por horas a fio, isso fingiria ser a maior tragédia da vida de Carlos e Rita. E a melancolia até seria amenizada. Bendita poça d`água deste verão de 2011! A melodia partiria e, com ela, a saudade do que, certa vez, se sonhara.

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