Antônio estava atordoado, e dizia, em meio ao pranto, ter visto a mulher de Ló. Sua esposa achava que era a pinga que o fazia falar tolices e começou a passar um café forte. Antônio jurava que era a mulher de Ló que ele vira, apesar da descrença sarcástica de sua interlocutora: "Não, Dulce, ela não virou pedra. Não é piada. Ela já era pedra". Ele fez uma pausa para aparar uma das muitas lágrimas que lhe escorriam pela face. Com os cabelos desalinhados e roupa suja, prosseguiu: "Ela era bonita. Loira. Com os olhos pintados. Mas nunca, na vida, vi olhar duro como aquele. Eu lhe pedia desculpas por estar chorando e por estar com aquelas roupas na hora do serviço.Ela não tinha como saber o porquê". Antônio se calou ao lembrar o gelo que sentiu diante daqueles olhos e do silêncio da boca pintada de batom. Dulce olhou para ele, e replicou: "E você, homem, chorou no serviço? Não podia se conter?" Ele disse que não. A esposa, em tom pragmático, perguntou se caberia uma ação trabalhista contra a tal mulher de Ló. Antônio deixou o tom melancólico e, um pouco aborrecido, disse: "Claro que não. Não há lei que obrigue alguém a não ser pedra. Além disso, sou eu que agonizo em Sodoma, não é?" Dulce irritou-se: "Pare com história de Ló e Sodoma, homem. Ficaste louco? Conte, enfim, por que chorava." Antônio respirou fundo e, preparando-se para nova leva de lágrimas, disse: "Porque mandaram-me embora". Dulce paralisou. Antônio temeu que ela fosse se petrificar também. Outro olhar como aquele, ele não suportaria no mesmo dia. Mas, felizmente, Dulce chorou, e Antônio respirou aliviado. Sua mulher era de carne e osso, e até tivera a delicadeza de desviar os olhos dos de seu marido...Ao final da noite, ninguém conseguia conciliar o sono naquela casa, e a tristeza reinava. Antônio,todavia, no seu íntimo, alegrava-se por, nunca mais, ter que ver os olhos da mulher de Ló. Preferia ser ele um Jó na vida a cruzar com aquele ser de pedra, num elevador,outra vez.
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