Maria era empregada doméstica. Perdera a mãe cedo. Fora criada por uma tia que lhe batia. Seu tio a estuprara. Maria era estéril, era seca, era dor surda. Maria limpava, odiava,passava,amaldiçoava, cozinhava. Maria detestava as patroas. Sentia que elas, num ato de ganância, tinham-lhe roubado, do destino, a quota de felicidade que lhe pertencia, para terem uma quota extra. Cada luxo, cada extravagância, cada ordem , cada reprovação eram motivos para ódio. Os elogios e os carinhos eram motivo de amargura. Maria era solo pedregoso, impermeável; era árida como o sertão em que nascera.
Mas havia Francisco, o porteiro. E Francisco não questionava o destino. Ele acatava as ordens e as dores com zelo. Era um zelador. E Francisco fora amado, junto com outros doze irmãos e dois cachorros, e aprendera a amar. Não, não aprendera a escrever. Não, não aprendera a carpir, nem a construir móveis ou casas.Mas aprendera a amar. Francisco era vesgo e gordo. Mas sempre conseguia conquistar alguma senhora sem atrativos e se contentava com a conquista. Um dia, ele convidou Maria para sair e ela ,que queria uma refeição grátis, aceitou. E ela, que nunca amara um homem, entregou-se àquele. E, no final da noite, sentiu-se mulher e achou que os cabelos de Francisco eram bonitos e que seu peito era viril. E, no dia seguinte, conseguiu sorrir duas vezes, e até ouviu uma ordem sem maldizer a patroa por dentro. Francisco não sabia, mas era milagreiro, além de zelador. Santo Francisco, protetor da gente que vive que nem animal. Santo Francisco que fez Maria lembrar que era gente.
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