Hoje, ao passar por um “porta-entulhos”, repleto de lixo, joguei um saco de plástico com as fezes de meu cachorro. Espiei, brevemente, o conteúdo daquele grande recipiente,daquele lixão. A única imagem que gravei, em meio ao caos da sujeira e da deterioração, foi a de um pano azul, desgastado, um trapo.
E sabe o que pensei? Que os trapos, um dia, já vestiram pessoas, já compuseram vestidos ou calças, investidos de beleza, de estética. Já testemunharam a vida, e, com o pretexto de se amoldarem aos corpos, já presenciaram as almas que choram, que riem, que amam , que odeiam, que sonham , que se desesperam, que dão e tiram o valor de si mesmas e do que as cerca.. Os trapos já foram despidos de alguém, com delicadeza. Já viram a nudez do banho, do dormir, do amar.Os trapos já tiveram armários confortáveis. Os trapos já foram vestidos por alguém, que os escolheu, dentre outras vestimentas. Os trapos já foram contemplados por olhares vaidosos no espelho, quando eram dignos de serem portados. Os trapos foram comprados por alguém que a eles atribuiu valor. Os trapos , agora, tomam chuva no lixão e vão se desintegrar em trapos cada vez menores, mais e mais sujos, encardidos. Os trapos vão perder a cor, eventualmente.Os trapos ficarão irreconhecíveis.Os trapos vão virar pó e, num grande devaneio, recuperarão sua dignidade, ao se tornarem a matéria-prima dos corpos vivos que embalaram, quando eram , eles mesmos, vivos. De qualquer forma, os trapos têm um pouco da dignidade da vida das almas que testemunharam..
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