Natália contempla o uísque amarelado no copo com gelo. Os tranqüilizantes estão a entorpecer-lhe, como num ninar maternal e perverso. Em breve, a certeza de ter fracassado se tornará só um pensamento confuso, em meio à turvação da consciência. O desespero será dissolvido no álcool e a angústia da iminência de uma inexistência egóica vai se dissolver nas gramas alcoólicas. Nesses momentos de sedação, Natália crê que não haverá o amanhã, com sua ressaca, mas ele é fiel , e sempre vem acordar-lhe com as mesmas notícias da véspera. O mal estar era previsível, mas havia uma ameaça implícita nele, a cada dia mais cruel: a ameaça da morte psíquica e física. A dor era solitária. Exprimir suas causas era humilhante, insuportável. A confusão de sentimentos não permitia, tampouco, que as causas fossem óbvias.
Natália tinha uma hemorragia na alma, que não era passível de ser estancada. Sua fragilidade comportava, num paradoxo de difícil compreensão, uma força que a fazia sobreviver, todavia, como se um curativo de segunda mão controlasse o sangramento.
Antes de adormecer num torpor, Natália se lembrara de que sua irmã acabara de se tornar docente da Neurologia de uma grande Universidade Estadual. Fora a mãe que lhe comunicara a notícia naquela manhã. A última imagem de Natália antes de se entregar ao sono forçado quimicamente, foi da redação do vestibular em que ela tirara dez, e, sua irmã, que só passara em Medicina, após duas tentativas malogradas, tirara cinco. Quão inúteis são as convenções humanas-pensou ela- antes que a mente se aprofundasse no inconsciente, livremente.Inteligências mal direcionadas, erros de trajetória, escolhas mal feitas, azar…a cabeça girou em torno dessas palavras terríveis, até que se rendeu ao sono. Por dez horas, o consciente descansaria e o inconsciente, confessaria, fosse para o bem ou para o mal. O consciente se encarregaria de calar o que o inconsciente falasse de insuportável antes do despertar, todavia.
Como os despertares não são sempre iguais, quem sabe se Natália não aprende ainda, um dia, a sobreviver a si mesma?
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