sábado, 6 de novembro de 2010

escuto uma música

     Escuto uma música. A banda é do Leste Europeu. E minha mente devanea e vai até Praga… A Torre do relógio, a Praça, os turistas… Um jovem , magro e pálido, sai do bar. Usara cocaína e ecstasy toda a noite e , agora, vai prosseguir pelas ruas melancólicas como o céu nublado de outono, até seu pequeno, velho e sujo apartamento. Lá, ele vai tomar alguns tranqüilizantes, para amenizar o efeito de tudo que usara durante a madrugada. Vai tentar sedar-se e dormir por algumas horas. O sono é a melhor anestesia, por vezes. Esse rapaz é guitarrista de uma banda que nunca fez, nem fará sucesso. Ela está prestes a se desintegrar. Ele, então, vai arrumar um emprego como garçom, que ele odiará mais do que a tudo, e chegará a confundir o emprego com a própria vida, e desejará, então, morrer. Mas, ele já não deseja morrer? Sim, mas ele ainda não o sabe. Não sei mais do que isso sobre ele…
     No Santuário, uma turista reza ao Menino Jesus que seu marido volte…ele a deixara para ficar com uma moça mais nova. Clichê dos tempos atuais? Não importa. É a vida de Helena. Após o divórcio, sua irmã arrastara-lhe para essa viagem pela Europa, a fim de distrair-lhe da dor, mas as dores não admitem distrações; são obstinadas, determinadas a seguirem seu rumo…e Helena chora diante da imagem do Menino, que, hoje, tem seu manto azul.  O marido de Helena tem seu livre arbítrio…não sei o que será de Helena, mas o Santo Menino cuidará dela, de uma forma ou de outra. Os amores entre homens e mulheres causam chagas na alma…Ele , como Criador, entende, pois conhece Suas criaturas…
       Hans olha a cidade da janela de seu Hotel. O Hotel fede a mofo e cigarro, e o carpete é manchado. Todos seus livros foram recusados pelas editoras. Tudo que ele escrevera fora rotulado como indigno de ser publicado. E ele teme que sua vida tenha sido em vão, pois tudo que ele sabe fazer é escrever. Ele teme que as editoras detenham uma verdade em seu juízo, que contraria o que, agora, ele intitula de devaneio: a suposição de ter talento. São 10 horas da manhã, e ele entorna um gole do uísque que comprara na véspera. E se ele não passar de um pretensioso burguês falido? E se o suposto talento não for nada senão um superficial e megalomaníaco desejo de ser artista? E se ele não for um escritor cuja Arte é incompreendida, mas apenas mais um desempregado no continente europeu? O dinheiro vai acabar e ele vai ter que pensar em alguma ocupação ordinária, que lhe dê o sustento, e vai rotular sua vida de “indigna de ser vivida”, assim como os livros foram ditos “indignos de serem publicados”.AS CARTAS DA EDITORA TRAZEM A SENTENÇA SOBRE SUA VIDA. Não sei mais do que isso… Mas, antes que a música acabe, gostaria de dizer a Hans que continue a escrever sobre tudo que lhe acontecer e também sobre o que não lhe suceder. Hans, escreva sobre a dor, sobre a falência. Escreva sempre, na sarjeta, nos bares, nas horas de folga de seu emprego enfadonho e burocrático…enquanto você escrever, você vai suportar.
        A música acabou. Adeus, Praga.



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