Blanca é velha o bastante para reconhecer engodos e nova o bastante para os rejeitar. Idade difícil. E ela caminha pelas ruas de Havana em 1959, sem saber que os anos lhe tirarão um pouco da lucidez honesta e sincera que eles mesmos lhe trouxeram.
São tempos de mudança em seu país. Há medo e euforia por toda parte, mas, a ela, cabe só o medo. Medo de si, medo dos outros, medo dessa essência humana que a toda ideologia corrompe. Dizem alguns que são as ideologias que maculam o homem, mas ela não consegue crer: acha muitas idéias bonitas e diversas ações humanas reprováveis.
Aqueles que se intitulam cristãos vivem na conservadora elite, sempre alienada aos que menos têm, aos que nada têm e que, no entanto,justamente por nada possuírem, darão legitimidade para que uma minoria mude o rumo daquela nação. E não é qualquer nação: é a pátria de Blanca! O comunismo parece-lhe um cristianismo sem Cristo, colocado em fórmulas e leis tristes, como versos que não formam uma poesia ou como uma música sem melodia, ou, ainda, como uma aquarela toda cinza. Mas, o que fazer, se a tantos causa frenesi? Há muitos que do comunismo se enamoraram e o rechearam de dogmas, de hierarquia eclesial, de fervor , de santos e demônios. Têm os enamorados seus pastores e são eles, rebanho fiel. A esquerda tem um papa e ele, por sua vez, tem bispos. O que fazer?
A História seguirá seu rumo conforme o arbítrio dos homens. E Blanca dará a César o que é de César. E olhará para o Céu, ou para alguma flor triste num jardim abandonado, quando a alma sentir que é preciso dar a Deus o que é de Deus.
E que Deus julgue os Césares que interferirem no que o homem deve dar a Deus
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