domingo, 14 de novembro de 2010

A professorinha

      Carlos rejeitou a ligação acusada no visor de seu celular, após dois toques . O semáforo estava vermelho. A ligação era de Sandra, com quem ele dormira na noite anterior, após alguns copos de uísque. Em nenhum momento, ele planejara permitir que o que tivera com aquela mulher fosse mais do que uma noite. E, por isso, não atenderia nenhuma ligação dela.
       Impaciente com o sinal vermelho e atrasado para a reunião que presidiria, observou uma senhora que atravessava  a faixa de pedestres vagarosamente, com andar inseguro, costas encurvadas e cabelos brancos presos num coque. Um colar de pérolas de muitas voltas parecia fazer seu pescoço curvar-se ainda mais. A senhora era elegante, mas de forma despretensiosa. Fora a Professora de Carlos Alberto na primeira série do ginasial.
        Ah! Quanto ele amara aquela mulher, à distância, temeroso. Seu primeiro amor de menino...Como admirava o belo coque negro que ela ostentava, e seu porte altivo e seguro! Como amava seus olhos castanhos, amendoados e doces! E as unhas... ele ficava muito tempo a contemplar aquelas unhas grandes e pintadas, como se fossem um mistério a ser desvendado: mistério de ser mulher. A unha chegava a encurvar-se levemente, como se garra fosse, e aquilo o fascinava. A meia-calça, a longa saia preta, que não mostrava os joelhos, e as pérolas, sempre iguais, que impunham respeito, tudo era razão de veneração. Quem  teria dado  o colar se ela era solteira?- perguntava-se ele à época. E o ódio que nutria pelos outros garotos que perscrutavam, com olhares gulosos, o corpo daquela que só ele amava! Comentavam os meninos sobre os tornozelos bem feitos, sobre as ancas, sobre os seios empinados sob a blusa de seda. Carlos detestava o desrespeito com que olhavam e falavam daquela que ele queria conservar, em sua mente, só para si, etérea: dona Dalva. Corava quando ela lhe perguntava algo, perante a classe, e virava motivo de chacota dos colegas mais perspicazes que diagnosticavam o amor platônico do menino.
          O sinal abriu e Carlos prosseguiu para sua reunião. Dona Dalva caminhou, alheia a tudo ao redor, até sua casa. Abriu o portão, destrancou a porta, adentrou a sala. Sentia-se cansada pelo calor e resolveu sentar-se no sofá por alguns instantes , antes de pegar um copo de água gelada. O gato olhou-a com olhos indecifráveis, próprios de gato, e ela desejou ter um cachorro. Desejou ter tido um filho. Lamentou não ter tido um marido. Sentia-se uma velha solteirona amargurada, que seria encontrada morta, comida pelo gato, muitos dias após morrer, por algum vizinho que sentisse o mau odor. Odiou o gato por alguns instantes, como se fosse ele seu algoz. Algoz? Ela fora sua algoz. Sempre bela, exigente, recusando pretendentes. Tantos lhe viam à mente agora, com o sabor do arrependimento. Alguns já haviam até morrido, mas não sem antes casarem-se com alguma amiga sua, de inferior beleza. De que lhe servira a beleza?-pensava ela. Nada restara da beleza àquela altura da vida. Fora ela a professorinha bela, recatada, moça de família, e morreria como velha feia, amarga, abandonada. Odiou-se. Havia sido ela mesma sua algoz. Sem saber por que, num daqueles momentos a que os crédulos atribuem misticismo, abriu um livro de Flaubert que sempre amara. Do livro, caiu uma foto. Com dificuldade, ela a retirou do chão e a contemplou: era seu cunhado, em traje de gala, com seu irmão. Os dois sorriam na fotografia. E Dalva, num segundo, entendeu sua existência, miraculosamente: ela se guardara solteira porque sempre amara, à distância, seu cunhado. Este até lhe fizera propostas, mas ela fora fiel à irmã, e nunca cedera ao seu amor. Nunca o abandonara, tampouco. A ele também, fora fiel, sem o saber. Amara-o até o fim. E, mesmo agora que a morte levara o amado, ainda o amava, secreta e tristemente. A foto lhe falara tudo isso num segundo!O sorriso aberto dele, em preto e branco, lhe dissera tudo! Lamentava, é claro, o amor desperdiçado, não usado. Mas sabia ter amado mais do que muitas mulheres casadas jamais o saberão. Ela não deveria ser amarga, pois seu coração nunca fora árido. Pelo contrário, fora mais apaixonado do que o de sua própria irmã, a que a sociedade intitulava de feliz senhora casada, mãe de família. O que sabia sua irmã sobre o amor, no entanto? Nada. Sabia ela sobre gerência e administração do lar, como o sabe um empresário sobre sua empresa. Amava os filhos, é claro. Mas o marido fora apenas o sócio fraternal da empreitada.
        Dalva compreendeu, e foi grata por ter podido amar, antes de morrer, mesmo sem ser amada como queria, mesmo que tal amor tivesse ficado em suspenso por toda uma vida. Ainda assim, era amor. E qualquer tipo de amor valida uma existência. E existências validadas não temem gatos sinistros, que rondam e espreitam.

Nenhum comentário:

Postar um comentário