sábado, 6 de novembro de 2010

As Cordilheiras se chamam Lídia

      Alfredo sabe que está doente, conforme caminha pelas ruas de Santiago. Ele sabe que seu corpo já dá os primeiros indícios de querer abandoná-lo. E ele não irá procurar um médico, porque também a alma deseja partir. É um desejo calmo, resignado, a que se oporiam amigos e parentes se acaso ele ainda os tivesse. Além do mais, no corpo de 98 anos, Alfredo já não se vê. Espelhos desmentem suas memórias e a imagem neles refletida parece a de um estranho, a quem o passado é detalhe insignificante. Nas rugas, Alfredo não encontrou a marca do que viveu, como alguns lhe haviam dito que ocorreria. No rosto envelhecido e no corpo fraco, encontrou a um estranho, que enclausurava o verdadeiro Alfredo. Quase um inimigo.
       Alfredo sempre imaginara, poeticamente, que ao começar a deixar esta vida, sua mente devanearia ao passado e nele mergulharia nostalgicamente. Mas, equivocara-se. O primeiro amor, a primeira dor, os pais, a infância,os irmãos, a falecida esposa, a filha ,que com ele não mais falava ,eram figuras distantes. As Cordilheiras eram silenciosas também. E  Alfredo sentiu-se só. E temeu nada encontrar depois que partisse. Pensava ele: “Nunca toquei a neve ao topo das Cordilheiras. Nem nunca as tocarei. Mas, sempre as vi, à distância, e elas sempre estiveram lá, testemunhando minha vida nesta cidade”.  Talvez,  o que há após a  morte seja como essa neve.
      Alfredo desmaiou numa calçada, e um garçom o acudiu. Chamou-se o resgate e ele foi admitido, inconsciente, no maior Hospital de Santiago. Horas mais tarde, a consciência despertou do sono torporoso numa cama hospitalar, e os olhos embaçados contemplaram a jovem enfermeira que mexia no soro. Alfredo olhou fixamente no azul dos olhos da moça. Esta estava tão preocupada em acertar o gotejar da solução endovenosa, que nem percebeu o abrir discreto das pálpebras de seu paciente. Alfredo não se mexera, nem nada falara. Os olhos contemplados eram os  de Lídia, sua falecida irmã, que o criara depois da morte precoce da mãe. Sem dúvida, eram aqueles olhos azuis os de Lídia. E Lídia montava a árvore de Natal na casa em que tantos velórios houvera, e Lídia assava o rosbife como Alfredo gostava. E Lídia era terna, tinha mãos suaves, que afagavam os cabelos desgrenhados do medroso irmão,  e proferia palavras que tinham o poder de abraçar maternalmente. Sim, sem dúvida, eram os olhos de Lídia, os daquela enfermeira. E Alfredo sentiu paz: a neve sempre estivera lá, nos picos mais altos das Cordilheiras, mesmo no verão. E não era inatingível , já que alguém permitira que os olhos de Lídia viessem povoar o silêncio de sua velha mente. E Alfredo fechou os olhos para não perder a imagem do azul do olhar da querida irmã, e pensou que as Cordilheiras deveriam se chamar Lídia.

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