Alfredo sempre imaginara, poeticamente, que ao começar a deixar esta vida, sua mente devanearia ao passado e nele mergulharia nostalgicamente. Mas, equivocara-se. O primeiro amor, a primeira dor, os pais, a infância,os irmãos, a falecida esposa, a filha ,que com ele não mais falava ,eram figuras distantes. As Cordilheiras eram silenciosas também. E Alfredo sentiu-se só. E temeu nada encontrar depois que partisse. Pensava ele: “Nunca toquei a neve ao topo das Cordilheiras. Nem nunca as tocarei. Mas, sempre as vi, à distância, e elas sempre estiveram lá, testemunhando minha vida nesta cidade”. Talvez, o que há após a morte seja como essa neve.
Alfredo desmaiou numa calçada, e um garçom o acudiu. Chamou-se o resgate e ele foi admitido, inconsciente, no maior Hospital de Santiago. Horas mais tarde, a consciência despertou do sono torporoso numa cama hospitalar, e os olhos embaçados contemplaram a jovem enfermeira que mexia no soro. Alfredo olhou fixamente no azul dos olhos da moça. Esta estava tão preocupada em acertar o gotejar da solução endovenosa, que nem percebeu o abrir discreto das pálpebras de seu paciente. Alfredo não se mexera, nem nada falara. Os olhos contemplados eram os de Lídia, sua falecida irmã, que o criara depois da morte precoce da mãe. Sem dúvida, eram aqueles olhos azuis os de Lídia. E Lídia montava a árvore de Natal na casa em que tantos velórios houvera, e Lídia assava o rosbife como Alfredo gostava. E Lídia era terna, tinha mãos suaves, que afagavam os cabelos desgrenhados do medroso irmão, e proferia palavras que tinham o poder de abraçar maternalmente. Sim, sem dúvida, eram os olhos de Lídia, os daquela enfermeira. E Alfredo sentiu paz: a neve sempre estivera lá, nos picos mais altos das Cordilheiras, mesmo no verão. E não era inatingível , já que alguém permitira que os olhos de Lídia viessem povoar o silêncio de sua velha mente. E Alfredo fechou os olhos para não perder a imagem do azul do olhar da querida irmã, e pensou que as Cordilheiras deveriam se chamar Lídia.
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