sábado, 6 de novembro de 2010

Chico e a Mega-sena da virada

    Chico já não conseguia pronunciar as palavras com uma dicção inteligível. Normalmente, àquela hora, ele ainda estaria apenas muito embriagado e não terrivelmente embriagado. Os comparsas no bar pensaram que o adiantar do porre fosse pelo ano que já vinha apressado nas horas porvir.
    Chico sentou-se, meio tonto, e deveras fedido, na mesa de José, que , em nome  dos bons anos de companheirismo no cimento , nos tijolos, nos andaimes e na cachaça, tolerava-lhe o mau cheiro: uma  mistura de álcool, com hálito de jejum, suor e chulé. Sim, Chico era notório, no bairro, pelo chulé. É que ele só tinha dois pares de sapatos e , desde que a esposa o deixara, não os lavava nem os arejava. Não usava, tampouco, meias, para não ter o trabalho de lavá-las e não banhava os pés depois das longas jornadas em que construía a casa de outrem. A sua própria, não tinha, não. Ficara com a esposa e seu novo marido. Chico pagava um quarto numa pensão, que cheirava tão mal quanto ele. A dona, todavia, torcia a boca sempre que ele chegava. Bêbados, ela tolerava, mas aquele odor, aquela falta de banho, ela não suportava… Ora, havia um chuveiro na pensão! Por que ele não o usava?Ela já se acostumara com a essência do mofo de seu próprio estabelecimento, mas nunca aceitaria o chulé de Chico.Natural. Sempre toleramos menos os maus odores alheios. Acontece que desde que Rosa, esposa de Chico, trocara-lhe por Wilson, nosso caro Francisco já não gostava tanto de água…virara meio gato, menos gente, meio rato…uma metamorfose lhe sucedera. Se continuasse sem fazer a barba, logo as crianças chamá-lo-iam de lobisomem. Ora, mas o álcool anestesia as narinas e turva os olhos que se contemplam no espelho, tornando a auto-indulgência grande diante de tão triste figura. Triste figura lembra-me Dom Quixote. Sim, não é à toa que me lembrei do herói de Cervantes…nosso herói brasileiro, hoje, quer lutar contra moinhos e vê-os como gigantes. Hoje, sente-se cavaleiro da nobreza; sente-se forte o bastante para ser vencedor.
      Disseram-lhe, no terreiro, que ele ganharia a mega-sena e ele creu piamente. Ah, pobre delirante…quixotesco…Não! Não! Não ousem falar assim de Chico, apesar de ter sido eu mesma quem trouxera a comparação com Dom Quixote no parágrafo acima. Deixem-me explicar: nosso Chico é racional. Muito racional: ele calculou, com precisão digna de um professor universitário, que se ele tivera o azar de nascer pobre, de perder a mãe aos 5 anos e o pai, aos 13 ,  e se ele tivera também o azar de ter levado o calote do último mestre de obras que o contratara,  de  ser corno, de ter a antipatia dos filhos por não pagar pensão, de não conseguir nova esposa e  de não ter dinheiro pra pagar uma puta, era claro que ele poderia ganhar na loto! Sim, porque, matematicamente, a chance de tantos infortúnios se acumularem é igual, se não maior, à de ganhar na mega-sena. E não era qualquer mega-sena. Era a da virada! E como Chico queria uma virada em sua vida…
      Quando o belo apresentador começou o sorteio na TV do boteco, Chico arregalou os olhos vermelhos para ver, no meio do nevoeiro de sua embriaguez, um novo destino. Número por número veio e ,lá pelo terceiro, Chico sentiu o coração esmorecer. Esperou até o fim. Não acertara um só numero. Levantou-se sem nada falar e sem, de ninguém, se despedir. Amassou e jogou o comprovante da Loteria na esquina. Decidiu não ir para a pensão. Pouparia as narinas da dona da espelunca, ao menos.Deitou-se no chão, enquanto ouvia rojões. Ainda não era meia-noite, mas há sempre os ansiosos que testam os fogos de artifício antes, criando uma tensão no ar que atinge o clímax na hora da virada. Chico adormeceu. Sono de álcool. Sono daqueles pesados, leves, agitados. Suou, esbravejou, em sonho, contra a vida.Sonhou que lutava contra  aquela bola que girava os números no sorteio, como se fosse ela um monstro. E , à meia-noite, quando os rojões estouraram em volume inconciliável com seu sono, virou corpo e rosto para a parede da loja onde se recostara na sarjeta . Essa fora a sua virada. Virada para a esquerda, para não ver os fogos, à direita. Virada de fim de ano. Virada de Chico.
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